~ MAREU ~
Se existia um universo paralelo onde sexta-feira à noite significava descanso, vinho e uma série ruim com legenda, eu tinha certeza de que ele não incluía a mansão Novak.
Porque, na minha sexta-feira, eu estava de meia agachada no quarto da Olívia, tentando convencer uma criança de seis anos e meio a colocar um vestido sem transformar aquilo em um protesto político.
E, como se vestir já não fosse humilhante o suficiente, tinha o detalhe novo: o jantar com a Paula e a irmã dela não ia ser na casa dos Rizzo.
Ia ser aqui.
Mudança de planos.
Motivo oficial: William tinha passado o fim da tarde meio febril. Nada grave, segundo o pediatra, mas o suficiente para Logan entrar no modo “eu não saio do raio de dois metros do meu filho nem que me arrastem”.
Motivo real, na minha opinião: Logan Novak não confiava mais em portas, pratos e coincidências. E eu não podia culpá-lo. Eu também tinha desenvolvido uma alergia emocional a qualquer coisa que parecesse “normal”.
Olívia estava sentada na beira da cama com uma expressão de quem tinha sido informada de um imposto novo.
— Eu não vou descer — ela repetiu, pela vigésima vez.
Eu ergui o vestido na altura do rosto dela, como se o tecido pudesse ter poderes hipnóticos.
— Vai sim.
— Não vou.
— Vai.
— Mareu, você está ignorando a minha vontade.
— Olívia, você está ignorando a realidade.
Ela cruzou os braços e respirou fundo, teatral, como se estivesse contando até dez para não me processar.
— Eu posso listar cinco motivos pelos quais esse jantar é um erro.
— Você pode — eu concordei, ajustando a meia dela com cuidado. — E eu posso listar cinco motivos pelos quais você vai colocar esse vestido mesmo assim.
— A diferença é que os meus motivos são racionais.
— A diferença é que os meus motivos têm um chefe que paga meu salário por trás — eu respondi, e puxei o zíper com suavidade.
Olívia me lançou um olhar atravessado.
— Motivo um: Paola tem nove anos e ainda não sabe falar “idiossincrasia” sem engasgar.
Eu pisquei.
— Isso é… extremamente específico.
— Eu ouvi ela tentando falar na sala da diretora. Ela disse “idiossin… idioss… idio…” e desistiu.
— Olívia, ninguém usa essa palavra em uma conversa normal — eu falei, pegando uma escova. — Isso não é parâmetro de caráter, é parâmetro de… dicionário.
— É parâmetro de inteligência.
Eu tentei não rir, porque eu estava escovando o cabelo dela e precisava de atenção.
— Motivo dois — ela continuou, retomando o tom sério. — Ela não sabe a diferença entre dorama e série americana.
Eu parei a escova no ar.
— Isso é imperdoável — eu disse, com convicção. — É o tipo de confusão que desorganiza a sociedade.
— Exatamente — Olívia confirmou, e eu vi que ela estava se divertindo com o próprio tribunal.
Eu prendi o cabelo dela com uma presilha pequena. Ela ficou impecável, infelizmente.
— Mas quer saber? — eu falei. — Talvez seja influência da irmã mais velha.
— Da Paula?
— Da Paula — eu confirmei. — A Paula também não sabia coisas básicas.
Olívia estreitou os olhos.
— Como o quê?
Eu inclinei a cabeça, pensativa, como se eu tivesse um arquivo secreto de “falhas sociais da Paula Rizzo”.
— Como quando usar um Louboutin e quando usar um… Manolo Blahnik.
Silêncio.
Olívia me encarou como se eu tivesse falado em grego.
— O que é isso?
Eu fiquei genuinamente chocada.

VERIFYCAPTCHA_LABEL
Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Contratei uma Babá e ela era Minha Noiva Fugitiva
Quantos capítulos por dia são liberados?...