Entrar Via

Contratei uma Babá e ela era Minha Noiva Fugitiva romance Capítulo 95

~ MAREU ~

O silêncio depois do grito da Olívia foi tão pesado que eu senti vontade de pedir desculpas por ela.

Tá, mentira. Não senti não.

Antônio foi o primeiro a respirar de novo. Ele soltou uma risadinha curta, daquelas de homem que acha que consegue resolver tudo com desdém.

— Que bobagem.

Olívia girou o rosto devagar, com a calma de quem vai assinar um decreto.

— Não é bobagem. Nós temos um contrato, não é, papai?

Eu vi Marta arregalar os olhos um milímetro. Paula congelar no sorriso.

Logan não pestanejou. Ele só assentiu, como se contrato infantil fosse item de rotina no calendário dele.

— Claro.

A palavra caiu na mesa com tanta naturalidade que ninguém conseguiu contestar na hora. Aí ele pareceu lembrar que tinha plateia adulta e fez o ajuste social, virando o olhar para Antônio.

— Quero dizer… — ele disse, no mesmo tom calmo. — Você não espera que eu me case com alguém que não seja boa para a minha filha, não é?

Antônio inclinou a cabeça, pego no próprio jogo.

— Naturalmente...

— Então — Logan concluiu, simples, como se estivesse falando de um requisito básico de segurança — Olívia precisa aprovar.

Paula apertou o guardanapo entre os dedos. Eu vi. Aquilo foi mínimo, mas foi real.

Olívia, satisfeita, recostou na cadeira como quem acabou de vencer uma audiência.

E então, como se só ela ouvisse a parte absurda de tudo aquilo, ela baixou a voz e puxou minha manga com dois dedos.

— Por que tá todo mundo falando de casamento? Como a gente chegou nisso?

Eu respirei e inclinei a cabeça na direção dela, tentando manter a expressão neutra.

— Fica calma. É só essas coisas de adulto e...

— Não me venha com coisas de adulto — ela cortou, rápida. — Parece que eu que sou a adulta aqui.

Eu engoli uma risada no reflexo. Olívia Novak dizendo “eu sou a adulta” era como um gato dizendo “eu sou o veterinário”. Você não discute. Só… aceita.

Antes que eu pudesse inventar uma resposta diplomática, a voz de Paula atravessou a mesa com doçura demais.

— O que não é o problema, não é? — ela disse, como se estivesse conversando sobre flores. — Eu adoro a Olívia.

Olívia levantou os olhos para ela com aquela sinceridade que faz gente rica suar frio.

— Pelo menos você aprendeu meu nome — ela respondeu. — Eu poderia te dar um ponto por isso, mas descontei dez pela boneca.

Eu senti o canto da minha boca tremer. Logan tossiu como se fosse engasgo. Paula ficou com um sorriso preso no rosto, tentando decidir se ria ou se processava.

— Ela é… — Marta comentou, e a palavra veio carregada de “na minha época crianças não agiam assim”. — Temperamental.

Logan virou o olhar para Marta, educado, mas atento, como quem mede o terreno.

Marta continuou, agora se sentindo confortável o suficiente para ser cruel com uma serenidade assustadora.

— Sabe… tem esse acampamento de férias. Educação rígida. Talvez você devesse mandar sua filha pra aprender umas coisas.

Paloma fez um som baixo de risadinha. Antônio ficou em silêncio, avaliando.

Eu senti o corpo da Olívia endurecer do meu lado.

Marta ainda completou, e foi aí que ela cruzou a linha com salto alto.

— Uma menina da idade dela precisa, sabe? Já que a mãe…

Olívia levantou de um jeito tão rápido que a cadeira arrastou no chão e fez um barulho horrível.

— NÃO FALA DA MINHA MÃE, SUA UVA PASSA DE BOTOX!

O mundo parou.

Juro.

Eu senti a frase bater num lugar muito sensível: o medo dela não era só do casamento. Era de ser substituída juntamente com a mãe.

— Liv — eu falei, com cuidado. — Você tem um poder enorme nas mãos.

Ela soltou uma risada curta, amarga. E amargor numa criança é sempre assustador.

— Até parece que você não conhece meu pai. Não é simples como falar “eu não quero” e pronto.

Eu inclinei a cabeça.

— Então?

Olívia enxugou uma lágrima com raiva, como se lágrima fosse falta de disciplina.

— Eu tenho que ter argumentos — ela disse, séria. Séria de um jeito que faria qualquer adulto se sentir incompetente.

Eu levantei uma sobrancelha.

— E o argumento “eu odeio ela” não vai funcionar?

— Não — Olívia confirmou, com a firmeza de quem já estudou o inimigo. — Ele vai dizer que isso é emoção e que emoção passa.

Eu fiquei olhando para ela por um segundo, percebendo de novo aquela parte dela que parece mais velha do que o corpo. A Olívia não só sentia, ela analisava o sentir. E isso era… bonito e triste.

Eu encostei o cotovelo no joelho, pensativa.

— Então tá — eu murmurei. — A gente precisa de argumentos.

Olívia endireitou a postura. O choro continuava ali, preso, mas ela já estava mudando de marcha.

— Exato.

Ela caminhou até a escrivaninha com a determinação de quem vai abrir um processo. Puxou a cadeira, sentou-se, e olhou para mim como se eu fosse parte da equipe.

— A gente precisa de um plano muito bem estruturado — ela declarou, com voz baixa e absoluta.

Eu encarei aquela criança de seis anos e meio montando estratégia contra um casamento corporativo e pensei, com uma clareza quase reverente:

Deus me ajude.

Histórico de leitura

No history.

Comentários

Os comentários dos leitores sobre o romance: Contratei uma Babá e ela era Minha Noiva Fugitiva