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Contratei uma Babá e ela era Minha Noiva Fugitiva romance Capítulo 96

~ LOGAN ~

A palavra “uva passa” ainda pairava no ar como se tivesse sido deixada sobre a mesa junto com os talheres.

A cadeira da Olívia tinha ficado ligeiramente fora do lugar. A porta lá em cima tinha batido. E, por alguns segundos, tudo o que eu ouvi foi o som educado demais das taças e o esforço coletivo de fingir que a cena não tinha acontecido.

Marta abriu a boca como se estivesse prestes a oferecer mais uma lição sobre como criar filhos alheios. Eu não dei espaço.

— A educação da minha filha diz respeito a mim — eu continuei. — E às pessoas a quem eu dou autorização para participar disso.

Eu senti Paula se mexer ao meu lado, uma pequena tensão no ombro, como se aquela frase pudesse respingar nela também.

— Logan… — ela tentou, baixo.

Eu mantive o olhar em Marta.

— E se a senhora entende tanto de educação — eu acrescentei, com a calma clínica que eu uso em reuniões difíceis — deveria saber que é falta dela ser invasiva na vida de quem mal conhece.

O silêncio cortou o jantar como lâmina.

Marta não era uma mulher que aceitava ser corrigida com facilidade. Ela ajeitou o colar como quem se recoloca no próprio pedestal.

— Ora, Logan — ela disse, com um sorriso que não chegava aos olhos. — Você vai se casar com a minha filha. Eu vou ser uma espécie de avó postiça daquela menina.

Eu não pisquei.

— Não hoje — eu respondi.

Antônio soltou uma risada curta, de nervosismo disfarçado de charme.

— Vamos… — ele começou.

— Mamãe — Paula entrou na frente dele com o tom de quem quer apagar incêndio sem molhar o vestido. — A Olívia só está assustada com as mudanças. Ela é só uma criança.

“Só.”

A palavra me irritou mais do que a frase inteira.

— Eu vou conquistá-la — Paula completou, olhando na direção da escada como se a Olívia fosse um investimento de médio prazo.

Eu assenti uma vez, apenas para encerrar o assunto.

A sobremesa foi um mille-feuille de chocolate amargo. Mas nem de perto era o item mais amargo da mesa.

Paola mastigou em silêncio, alternando o olhar entre o próprio prato e a direção para onde a Olívia tinha desaparecido, como se aguardasse autorização para sentir alguma coisa.

Marta fazia pequenas pausas entre um gole e outro, esperando que alguém pedisse desculpas por ter sido ofendida por uma criança.

Antônio tentava manter a conversa em tópicos neutros como clima, negócios, qualquer coisa que não fosse “sua filha acaba de chamar minha esposa de uva passa de botox”.

Eu respondi o mínimo.

Quando a última colher foi deixada no prato, eu olhei para Antônio.

— Um drink no meu escritório — eu disse.

Ele abriu um sorriso rápido.

— Agora?

— Agora.

Antônio levantou com a prontidão de quem entende convite como comando. Paula começou a se erguer também.

— Paula fica — eu disse, sem dureza, mas também sem negociação.

Ela congelou por um segundo, depois assentiu com aquele sorriso que ela usa quando quer parecer compreensiva.

— Claro.

Eu servi uísque para ele e para mim. Antônio aceitou como se aquilo fosse parte natural do ritual.

— Então — ele disse, encostando o copo na mesa do escritório com cuidado — precisamos conversar sobre o casamento.

Eu encarei o reflexo do líquido por um segundo antes de falar.

— Precisamos.

Ele sorriu, aliviado, como se eu tivesse dito “sim”.

— Eu entendo que o jantar em família tenha saído um pouco da linha — Antônio falou, já investindo no tom leve. — Marta é… intensa. Mas, Logan, você e Paula têm muito em comum. Você vai perceber quando estiverem sozinhos. Sem distrações. Sem… — ele fez um gesto vago, como se o nome “Olívia” fosse uma palavra imprópria dentro do meu escritório.

Eu tomei um gole pequeno.

— Pode ser.

Antônio se inclinou, confiante.

Antônio franziu a testa.

— Você só pode estar brincando comigo. Está me dizendo que vai deixar uma garota de seis anos decidir com quem você deve ou não se casar por causa da besteira de um contrato infantil?

Eu sustentei o olhar dele.

— Primeiro: ela tem seis anos e meio.

A sobrancelha dele subiu, irritada.

— Segundo: não é uma besteira — eu disse, sem levantar a voz. — E terceiro: eu sou lúcido o suficiente para saber que a minha filha não pode ter a palavra final numa decisão tão grande.

Antônio relaxou, como se finalmente eu tivesse dito algo sensato.

— Ótimo.

Eu não terminei.

— Mas o que vai contar é o bem-estar dela — eu conclui. — Sem ela não se sentir segura com a Paula, a minha filha vai fazer de tudo para impedir esse casamento. De tudo.

Eu não precisei explicar que “de tudo” incluía coisas que ninguém no conselho conseguiria prever ou controlar. Olívia era pequena, mas não era fraca. E eu já tinha visto o que acontecia quando ela se sentia encurralada.

Antônio ficou alguns segundos em silêncio. Calculando. Ajustando o plano para não romper.

— Tudo bem — ele disse, finalmente, com a voz mais baixa. — Tudo bem.

Ele levantou o copo.

— Eu vou conversar com a Paula. Vamos começar esses arranjos o mais breve possível. A presença dela aqui foi um primeiro passo.

Eu assenti uma vez.

— Mas entenda a posição do conselho — Antônio continuou, e o olhar dele ficou duro por baixo do verniz cordial. — Você não tem tempo a perder.

Eu encarei o copo na minha mão como se ele pudesse me dar uma resposta simples.

Tempo.

Eu pensei na Olívia lá em cima, com raiva e dor. Pensei na Mareu correndo atrás dela sem hesitar. Pensei na maneira como o navio tinha engolido luz e certezas e me devolvido com a sensação de que qualquer coisa poderia quebrar de novo.

Então, eu levantei os olhos para Antônio e disse:

— Eu sei.

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