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Contratei uma Babá e ela era Minha Noiva Fugitiva romance Capítulo 98

~ MAREU ~

— O que eu estou fazendo aqui mesmo?

A voz da Clara vinha com aquela mistura de desespero e curiosidade que só pessoas sensatas têm quando aceitam acompanhar a amiga em um plano que claramente não foi criado por alguém sensato.

Eu empurrei o carrinho de mão… metafórico… que era a Olívia andando na minha frente com um nível de confiança perigoso para uma criança de seis anos e meio dentro de um shopping de gente rica.

— Garantindo que eu saiba agir como pobre — eu respondi.

Clara soltou uma risadinha, olhando em volta, para as vitrines que brilhavam como se as lojas fossem aquários e os peixes fossem pessoas que tinham dinheiro de sobra para respirar.

— Agir como pobre é fácil — ela disse. — Você não tem dinheiro, você não gasta.

Eu parei por um segundo, como se ela tivesse me dado um tapa filosófico.

— Eu sei! — eu protestei. — Mas é difícil quando eu vou entrar em lojas de sapatos com a filha de um bilionário e apresentar Christian e Manolo pra ela.

Clara franziu a testa.

— Christian e Manolo?

— Louboutin e Blahnik — eu corrigi. — Desculpa, eu falei como se eu frequentasse churrasco com eles.

Clara arqueou uma sobrancelha.

— Ah, sim… — ela disse, fingindo que entendia. — Acho que nunca fui apresentada. Deve ser coisa de milionário mesmo.

Olívia virou o rosto, escutando só a palavra “milionário”.

— Meu pai não é milionário — ela corrigiu, séria. — Ele é bilionário.

A vitrine tinha uma sandália que parecia um crime de luxo: finíssima, dourada, e certamente mais cara do que a minha dignidade.

Olívia encostou o nariz no vidro.

— Eu posso entrar?

— Você pode — eu disse. — Mas sem prometer que vai processar a loja se não tiver seu tamanho.

— Eu não processo, eu negocio.

— Pior.

Entramos, e até o ar lá dentro era diferente. Um ar de… privilégio. Uma temperatura perfeita. Uma música que parecia tocar só para pessoas com cartão black.

Foi quando uma das vendedoras levantou os olhos e me reconheceu antes mesmo de eu terminar de atravessar a porta, e a expressão dela se abriu como se eu tivesse voltado de uma guerra.

— Meu Deus… — ela disse, levando a mão ao peito. — Faz tempo que você não vem aqui. Achei que estava nos traindo.

Clara parou atrás de mim e eu senti o olhar dela bater nas minhas costas como uma lâmina.

Eu sorri com a maior naturalidade que eu consegui forjar.

— Jamais — eu respondi, como se eu não tivesse passado meses sobrevivendo de miojo e sarcasmo.

A vendedora já estava se aproximando, feliz.

— Eu tenho vários lançamentos daqueles que eu sei que você gosta — ela disse. — Quer que eu peça para descer? Trinta e sete, certo?

Eu virei a cabeça só um milímetro na direção da Clara e fiz uma cara de choro forçado. Daquelas de quem está prestes a ser presa em flagrante por ter uma vida anterior.

Clara balançou a cabeça negativamente. Uma negativa curtinha, firme. Do tipo: não inventa.

Eu respirei e segurei Olívia pelos ombros, colocando a minha missão na frente da minha vergonha.

— Na verdade, hoje estamos procurando algo pra Liv aqui.

A vendedora abaixou os olhos na direção da Olívia e o sorriso dela virou açúcar.

— Ah, claro! — ela disse. — Vamos descobrir o gosto dessa lindeza.

Olívia se endireitou, satisfeita.

— Meu gosto é estatisticamente superior à média — ela avisou.

A vendedora piscou.

— É… ótimo.

E, de repente, nós três estávamos sentadas em um sofá que parecia ter sido feito do couro de um animal que só morava em ilhas privadas.

Em menos de cinco minutos, apareceu uma bandeja com canapés, chocolate e uma taça de vinho para mim e para Clara.

Olívia recebeu um refrigerante em um copo tão elegante que eu tive a sensação de que ele tinha sido batizado.

— Isso aqui é serviço de loja ou culto? — Clara murmurou.

— É um teste — eu murmurei de volta. — Se você recusa o canapé, você é pobre de verdade.

Olívia já estava experimentando um primeiro par, andando devagar, concentrada, como se estivesse verificando a estabilidade de um avião antes de decolar.

Eu ri, e naquele momento, com ela ali, com as perninhas pequenas e a postura séria, eu senti uma coisa boba e bonita: o que estávamos fazendo ali hoje era só sobre sapato. Era sobre devolver para ela um pedaço de vida que tinha sido interrompido com violência.

Ela deu uma voltinha, feliz.

— Eu posso ver outro?

— Você pode ver quantos quiser — eu disse.

O tempo passou do jeito mais indecente possível.

Sapatos iam e vinham como se fossem personagens secundários de uma novela de luxo. Olívia se divertia. Clara comia canapés como se fosse terapia. Eu bebia vinho como se eu estivesse tentando esquecer que um dia eu já fui cliente daquela loja e agora eu era uma babá com uma missão emocional.

Em um momento em que a Olívia estava distraída escolhendo entre “o que faz barulho de poder” e “o que faz barulho de ameaça”, eu me inclinei para Clara.

— Então — eu perguntei, casual, como se eu não fosse uma fofoqueira funcional. — Como estão as coisas com o Henrique?

Clara me olhou como se eu tivesse perguntado sobre física quântica.

— Que coisa?

— Você sabe — eu disse. — A coisa.

— Não sei, não. Não tem coisa nenhuma com o Henrique. Eu disse, Mareu, foi só uma viagem profissional.

Eu estreitei os olhos.

— Então por que eu sinto que você está mentindo pra mim?

Clara revirou os olhos.

— Ele me mandou flores em casa — ela respondeu, como se fosse a coisa mais normal do mundo receber flores de um COO bilionário no próprio endereço. — E dessa vez eu chequei e foi ele mesmo.

Capítulo 98 1

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