~ MAREU ~
— Aniversário do seu pai?
Olívia assentiu com uma naturalidade inconveniente.
— Sim. Semana que vem.
— Eu… eu não sabia — eu disse, porque, honestamente, eu não sabia. Eu tinha muitas informações sobre Logan Novak. Eu sabia o horário em que ele tomava café, o jeito como ele ficava quando ouvia a risada do Liam, o tipo de silêncio que ele fazia quando estava segurando uma emoção pela garganta.
Mas data de aniversário? Não. Isso era categoria “intimidade” e eu ainda estava tentando entender onde eu cabia na vida dele sem ser atropelada por um terno.
Olívia olhou para uma vitrine de loja masculina com a mesma seriedade com que avaliava um problema de matemática.
— Você acha que ele prefere mais um terno ou um sapato?
Meu cérebro travou.
Porque a pergunta era simples, mas o universo que ela carregava era complicado.
Eu virei a cabeça para Clara num pedido silencioso de socorro.
Clara deu de ombros.
— Eu não faço ideia.
Obrigada por nada.
Eu suspirei.
— Tá — eu disse, tentando parecer calma e madura como uma pessoa que definitivamente não era nenhum dos dois naquele momento. — Então vamos dar uma volta.
Olívia já começou a andar, prática, como se o presente do pai fosse mais um item na lista de tarefas do dia.
Eu fui atrás, e meu olhar começou a passear pelas vitrines.
Terno. Relógio. Perfume com nome francês. Pasta de couro. Sapato com preço de aluguel.
E eu senti aquela pontada incômoda de nostalgia.
Porque era bom.
Era bom poder entrar num lugar e gastar sem pensar no amanhã.
Agora, o meu amanhã vinha com planilha mental, saldo insuficiente e a consciência constrangedora de que eu estava comprando presentes com o cartão de um homem que não era meu e que, de algum jeito, também era o homem que estava mudando a minha vida.
Mal me dei conta de quando paramos em frente a uma vitrine cheia de colares e anéis. Diamantes em luz controlada. Brilho calculado.
Eu ri sozinha.
— Da próxima vez eu te apresento pra Ella — eu disse.
Olívia virou o rosto.
— Ella?
— Joias — eu expliquei, com a solenidade de quem apresenta uma amiga íntima. — Diamantes. Os melhores amigos das mulheres.
Olívia me encarou por um segundo, pensativa, e então respondeu com uma seriedade que sempre me desarma:
— Mas você é minha melhor amiga.
Eu senti como se alguém tivesse apertado meu peito com dois dedos.
Era uma frase pequena.
Mas vinha carregada de um tipo de confiança que eu não merecia e, pior, que eu queria merecer.
Eu parei de andar.
Clara continuou andando por um passo e só percebeu que eu tinha travado depois de me atropelar.
Olívia olhou para mim como se eu estivesse atrasando o cronograma.
E eu... Eu abracei Olívia.
Do nada.
Um abraço rápido, apertado, impulsivo, como se eu estivesse segurando alguma coisa que podia escapar.
Olívia ficou rígida no primeiro segundo — o corpo inteiro dizendo “não autorizado” — e então a voz dela saiu abafada, com indignação profissional.
— Mareu.
— Só um segundo — eu murmurei.
— Você está fazendo demonstração pública de afeto.
Eu ri no pescoço dela, porque aquilo era a coisa mais Olívia Novak possível.
Ela se livrou dos meus braços com a destreza de quem já aprendeu a escapar de tias emotivas.
— E como minha melhor amiga — ela completou, ajeitando o vestido como se eu tivesse amarrotado um contrato — você deveria saber que eu não gosto de demonstrações públicas de afeto.
E saiu andando.
Eu fiquei olhando por meio segundo, com a minha cara de boba derretendo no meio do shopping.
Clara bateu o ombro no meu de leve.
— Eu vi isso — ela disse.
— Fica quieta.
— Foi fofo.
— Foi humilhante.
— Foi as duas coisas.
Nós seguimos atrás da Olívia até ela parar diante de uma loja que não tinha brilho nem música sensual.
Só couro.
Pasta. Carteira. Cinto. Coisas que homens ricos compram para parecer que trabalham muito.
Olívia entrou como se já tivesse um cargo.
O vendedor veio rápido, sorrindo.
— Boa tarde.
Olívia ergueu o queixo.
— Boa tarde. Eu preciso de uma pasta de couro para o meu pai.
O vendedor piscou, tentando ajustar a imagem de “criança” com... bem, com Olívia.
— Claro… — ele disse. — Temos várias.
Olívia caminhou pelo espaço como se estivesse em um museu de escolhas.
Eu e Clara ficamos atrás, observando.
Olívia parou diante de uma prateleira e começou a apontar.
— Eu vou catalogar as opções por categorias — ela avisou.
O vendedor sorriu, achando que era brincadeira.
Eu não achei.
— Claro — eu disse, já entrando no jogo como assistente executiva improvisada. — Quais categorias?
Olívia respirou fundo, organizando o mundo.
— Categoria um: aparência de CEO — ela disse.
Eu assenti, séria.
— Boa.
— Categoria dois: capacidade de esconder documentos importantes — ela continuou.
Clara abriu a boca e fechou, segurando riso.
— Categoria três: resistência a ataques — Olívia completou.
Eu franzi a testa.
— Ataques?
— Ataques de café — ela corrigiu, como se eu fosse lenta.
Ah.
— Perfeito.
— Categoria quatro: facilidade de carregar sem parecer que está carregando — ela disse, e olhou para mim como quem entrega um teste.
— Você quer dizer… elegância funcional — eu traduzi.
Olívia assentiu, satisfeita.
— Exato.
— Eu avisei que ia catalogar — Olívia disse, como se fosse óbvio.
Nós pagamos e, quando saímos da loja com a sacola discreta que custava mais do que algumas pessoas gastam em um mês inteiro de supermercado, eu senti um orgulho bobo.
Porque ela estava tentando.
Do jeito dela.
Com planilhas emocionais e categorias estranhas.
Mas tentando.
— Pronto — eu disse, no corredor, aliviada. — Presente do papai resolvido. Agora a gente pode ir embora.
Olívia assentiu, satisfeita.
— Sim.
Clara respirou fundo como se tivesse sobrevivido.
E foi aí que uma loja de pijamas acenou para mim com um letreiro delicado e uma vitrine de tecido macio que parecia prometer paz.
— Meninas — eu disse, já entrando. — Cinco minutos.
Clara soltou um “ah, não” cansado.
Olívia veio atrás, curiosa.
Lá dentro, eu fui direto ao lugar que me chamou pelo nome: a arara de saldos.
Promoção.
A palavra mais bonita da língua portuguesa.
Eu puxei um pijama de tecido tão macio que parecia pedir desculpas por existir.
Eu olhei o preço.
Sorri.
Olhei de novo.
Sorri menos.
E então me virei para Clara, com a dignidade de quem está prestes a fazer um pedido criminoso.
— Ei… me empresta vinte contos?
Clara piscou.
— Vinte mil?
— Claro que não, tonta — eu disse, ofendida. — Já aprendi a ser pobre.
Clara soltou uma risada.
— Então por que você precisa de vinte?
— Porque o pijama tá na promoção e falta vinte pra eu conseguir comprar.
Clara respirou como quem aceita a própria derrota.
— Tudo bem.
Ela abriu a bolsa, pegou o celular.
— Mas você já não tem um igualzinho a esse?
Eu olhei para o pijama como quem olha para uma tentação.
— Tenho — eu admiti.
Clara me encarou.
— Então por quê?
Eu segurei a peça na mão por um segundo a mais do que deveria, sentindo o tecido escorrer pelos meus dedos.
E, sem querer, a minha cabeça foi para um lugar proibido.
Para o jeito como Logan ficava quando tirava o paletó no fim do dia. Para a distância mínima entre nós quando ele passava no corredor. Para o cheiro dele. Para aquela ordem natural que ele carregava até quando estava cansado.
Eu mordi o lábio inferior.
— Porque eu tenho um plano.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Contratei uma Babá e ela era Minha Noiva Fugitiva
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