O tom de ameaça era tão claro que Lorena soube, naquele instante, que não havia espaço para protestos. Por fora, manteve-se contida, mas por dentro fervia de raiva. E, inevitavelmente, seus pensamentos se voltaram para Sara. Para ela, só podia haver uma culpada por tudo aquilo.
— Não é isso que eu quero — confessou, com a voz baixa. — Mas preciso de um tempo para me organizar. Não posso simplesmente sair desta casa assim. Antes, preciso deixar alguém à altura no meu lugar enquanto eu estiver fora.
— Não se preocupe com isso — ele respondeu, seco. — Esse é um problema meu, não seu. Eu já sei quem vai assumir enquanto você estiver descansando.
Curiosa e um pouco apreensiva, ela perguntou de imediato:
— Quem?
— A Odete — revelou.
— Aquela velha?
A palavra escapou antes que ela tivesse tempo de se conter. A ideia de Odete ocupando o seu lugar soou como uma afronta.
— Olha como fala, Lorena — ele a repreendeu no mesmo instante. — Não se deve tratar nenhum funcionário desse modo.
— Me desculpa — pediu rápido. — Eu não quis dizer isso. Só estou surpresa por você escolher alguém que apenas serve à mesa e limpa o chão.
— Ela só faz isso porque é isso que você permite que ela faça — Renato retrucou, firme. — A Odete trabalha aqui há muitos anos e conhece esta casa melhor do que você imagina.
— Mas, Renato… — tentou protestar outra vez.
Dessa vez, como da primeira, ele não lhe deu espaço algum para continuar.
— Não há mais o que discutir — ele disse, encerrando o assunto. — Você começa as férias hoje.
Lorena apertou as mãos ao lado do corpo, tentando conter a frustração. Sentia-se encurralada, humilhada.
— E quando eu volto? — perguntou, num fio de voz.
— Não precisa se preocupar com isso agora, apenas aproveite e descanse. Esse tempo longe do trabalho vai te fazer bem. Quando eu achar que é o momento certo, te ligarei — respondeu, sem hesitar.
Ela respirou fundo, engolindo a revolta.
— Certo — disse, por fim. — Vou me organizar e sair ainda hoje.
— Ótimo. Antes de fazer as malas, chame a Odete para mim. — Renato respondeu, sem demonstrar emoção.
Aquilo foi a gota final. Lorena assentiu em silêncio e se afastou pelo corredor, o rosto fechado, deixava claro o quanto pensamentos malignos passavam por sua cabeça. Tudo o que queria era uma desculpa para não sair daquela casa, mas via que Renato estava decidido e não voltaria atrás.
Procurando por Odete, a encontrou carregando uma cesta de roupas de cama. Sem qualquer delicadeza, segurou o braço da mulher, fazendo o cesto cair no chão.
Assustada, Odete arregalou os olhos.
— O que está fazendo, Lorena?
— Escuta aqui, sua velha — disse, apertando o braço dela com força. — Não pense que vai ficar no meu lugar, está me ouvindo?


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