Na casa da família Lemos, Sérgio Lemos encarava os contratos espalhados sobre a mesa do escritório com o cenho carregado. A empresa que mantinha não era grande, mas era dela que vinha tudo: o sustento da casa, a estabilidade da família, a vida confortável que lutava para preservar. Ao revisar os papéis mais uma vez, percebeu o que já sabia, mas evitava admitir: entre os poucos contratos que restavam, apenas um realmente sustentava a estrutura da empresa.
O acordo com Renato Salles.
Embora Renato tivesse cancelado boa parte dos negócios entre eles, aquele contrato específico permanecia intacto. E, justamente por isso, parecia frágil demais. Vê-lo ali, isolado no meio dos outros papéis, despertava uma insegurança. Se perdesse aquilo, perderia muito mais do que um cliente.
A porta se abriu sem que ele percebesse.
— Você está aí há horas — disse Soraya, entrando com passos lentos. — O que está te preocupando?
Surpreso por não tê-la ouvido chegar, Sérgio ergueu o olhar. Passou a mão pelo rosto, cansado.
— Trabalho.
Ela se aproximou da mesa e apoiou as mãos na borda.
— Não é só trabalho. Eu te conheço.
Ele soltou um suspiro curto.
— A empresa está por um fio, Soraya. Se esse contrato cair… — não terminou.
Ela olhou para os papéis.
— É o do Renato, não é?
O marido assentiu.
— É o único que ainda segura as contas. E eu não confio na estabilidade disso.
— Você acha que ele vai cancelar?
— Eu não sei — confessou. — Ele fez questão de cancelar quase todos, mas deixou esse aqui.
— Será que ele está mantendo esse contrato por causa da Sara? — Soraya perguntou, sentando-se em frente à mesa, cruzando as mãos.
— Não sei.
— Não se esqueça de que fizemos o que ele pediu no dia do casamento. Ele queria uma noiva, e nós demos. Seria injusto dizer que não cumprimos com a palavra.
— Você tem razão — concordou Sérgio, pensativo. — Por acaso sabe como andam as coisas entre os dois?
— Tudo o que sei é o que a Raquel contou. Disse que o Renato está desfilando com a Sara por aí, apresentando-a como esposa.
Absorvendo a informação, ele encostou-se na cadeira.
— Isso é… inesperado.
— Ou estratégico — corrigiu Soraya. — Renato nunca faz nada sem motivo.
— Você não acha que ele está se apegando a ela?
Ela inclinou a cabeça rapidamente.
— Pelo amor de Deus, Sérgio, você realmente acha que uma mulher como a Sara conseguiria conquistar um homem como Renato Salles? — zombou, com desdém evidente.
O tom de desdém da esposa fez com que ele franzisse o cenho, mas não a interrompeu.
— Tente se lembrar — continuou ela —, ele era louco pela Raquel. Louco! Que tipo de homem trocaria o que sentia por uma princesa como a Raquel para se apegar a uma… patinha como a Sara?
A palavra ficou suspensa no ar, até que Sérgio passou a mão pelo queixo, incomodado.
— Você está sendo cruel.
— Não é crueldade — corrigiu, fria. — Estou sendo apenas realista. Renato pode estar exibindo esse casamento agora, mas isso não significa sentimento. Significa conveniência.
— E se não for? — perguntou ele, baixo.
Ela riu, descrente.
— Então o mundo virou de cabeça para baixo.
— Você subestima a Sara.


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