Na cidade, hospedada em um hotel, Lorena encarava o teto há longos minutos, como se ele pudesse lhe dar alguma resposta. Estava exausta daquele vazio, daquela espera que já durava semanas. Até então, Renato não deu qualquer sinal de que desejava seu retorno à casa.
— Maldição… — murmurou, apertando os lençóis entre os dedos.
A cada vez que a lembrança de Renato e Sara se montava em sua mente, rindo juntos, dividindo espaços, criando uma intimidade, a raiva crescia, densa, sufocante. Não era apenas ciúme. Era a sensação amarga de estar sendo substituída.
Virando-se para o lado, encarou o celular sobre a mesa de cabeceira. Embora estivesse fisicamente distante daquela casa, não estava completamente alheia ao que acontecia ali dentro. Contava com Eliene para isso. Fiel, discreta… e útil.
Era ela quem lhe contava cada detalhe, cada passo, cada mudança de humor, cada aproximação entre Renato e Sara.
Pegou o telefone e rolou as mensagens mais recentes. Nenhuma nova notificação. A impaciência se transformou em inquietação.
O silêncio do quarto começou a sufocá-la, já não se aguentava mais ali, cercada por paredes neutras e pensamentos que giravam sempre em torno do mesmo nome. Levantou-se de súbito, passou a mão pelos cabelos e decidiu sair. Precisava de uma distração. Qualquer coisa que a afastasse, ainda que por alguns minutos, daquela sensação incômoda de estar sendo deixada para trás.
Pegou o cartão do quarto, ajeitou a roupa diante do espelho e saiu, fechando a porta atrás de si com mais força do que pretendia. O corredor do hotel estava silencioso. Caminhava sem um destino definido, apenas seguindo em frente, tentando organizar os próprios pensamentos.
Foi então que, ao virar uma das esquinas do corredor, acabou se esbarrando em alguém.
— Me desculpe — disse automaticamente, antes mesmo de levantar os olhos.
O impacto foi leve, mas suficiente para fazê-la dar um passo para trás.
— Não olha por onde anda? — A voz feminina soou ríspida.
Ao levantar o olhar no mesmo instante, Lorena sentiu o corpo enrijecer. A mulher à sua frente era elegante, com postura altiva, olhar frio demais para ser casual. Bastou um segundo a mais para o reconhecimento vir de imediato.
Aquele rosto… ela já o havia visto antes. Não uma, mas várias vezes. Em fotografias.
O olhar dela se arregalou.
Ela sabia exatamente quem era aquela mulher.
A ex de Renato.
A mesma que o havia abandonado no altar.
O choque foi tão intenso que, por um breve instante, não conseguiu reagir.
— Você… — murmurou, antes de conseguir se recompor.
Sem perceber a expressão no rosto de Lorena, a mulher a encarou com um olhar de poucos amigos.
— Vê se olha por onde anda na próxima vez.
E, mantendo a mesma postura altiva, saiu dali e seguiu pelo corredor, sem olhar para trás.
Lorena permaneceu imóvel por alguns segundos. Só então, quase sem perceber, acompanhou a mulher com o olhar, observando-a se afastar até entrar em um dos quartos do andar.
— Ela está hospedada aqui… — sussurrou, sentindo um arrepio percorrer-lhe a espinha.
O pensamento a deixou inquieta. Com receio de que alguém a flagrasse parada ali, voltou a caminhar, fingindo naturalidade. Ainda assim, a mente trabalhava rápido demais para ignorar aquela coincidência.
Levou a mão ao bolso, pegou o celular e, sem pensar muito, decidiu fazer uma ligação.
Não demorou nem dois toques para que a chamada fosse atendida.
— Lorena? — A voz de Constança soou do outro lado da linha. — Que surpresa receber uma ligação sua justo hoje…
— Desculpa ligar para a senhora — respondeu, num tom contido. — Espero não estar atrapalhando.
— Não, não está — disse Constança. — Na verdade, eu estava mesmo pensando em conversar com você.
A imagem da ex de Renato cruzando o corredor ainda estava fresca em sua mente, assim como a certeza de que aquela coincidência não podia ser ignorada.
— Curioso — murmurou. — Acabei de esbarrar em alguém aqui no hotel. Alguém que não deveria estar tão perto assim de nós.
— Do que você está falando? — perguntou Constança, atenta.
Lorena hesitou por um segundo, saboreando o impacto que viria.
— A ex do Renato, a irmã da Sara… Ela está hospedada aqui.
Do outro lado da linha, o silêncio foi imediato.
— Isso não pode ser coincidência — Constança comentou, após um longo período de silêncio. — Elas também devem estar elaborando alguma coisa.
— Sim, dona Constança. E devemos ficar de olhos bem abertos — respondeu, num tom mais sério. — Porque o principal prejudicado em tudo isso pode ser o Renato.
— Eu estava disposta a aceitar a mãe da rata na casa, na esperança de que isso a incomodasse e a deixasse mais vulnerável. Mas saber que elas também podem estar tramando alguma coisa me deixa em estado de alerta.
Lorena respirou fundo do outro lado da linha. Aquela abertura era exatamente o que esperava.
— Eu também pensei nisso — respondeu. — E, sendo sincera, ficar longe só me coloca em desvantagem. Enquanto estou aqui, elas ocupam espaço, ganham terreno… e eu fico apenas ouvindo relatos.
Houve um breve silêncio, como se Constança estivesse refletindo.
Lorena não hesitou.
— Quero voltar para a casa, dona Constança. Me ajude a convencer o Renato a encerrar essas minhas “férias”. Já fiquei tempo demais afastada.
— Vou ver o que faço, por enquanto, fique de olho na Raquel.

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