Na mesa de jantar, o silêncio era quase ensurdecedor. Havia apenas o som dos talheres quebrando o silêncio.
Enquanto comia, Constança não tirava os olhos de Sara, atenta a cada gesto, a cada movimento tenso. Percebia com clareza o quanto ela se sentia desconfortável naquela situação e, embora uma parte sua se satisfizesse com isso, outra permanecia inquieta.
Por mais que apreciasse ver Sara fora do lugar, havia algo que a deixava em alerta: a presença de Soraya. A ideia de não saber o que a mulher estava de fato fazendo ali a incomodava.
— Como você tem passado, Renato? — perguntou Soraya, puxando assunto e quebrando o silêncio tenso da mesa.
— Bem — ele se limitou a responder, sem levantar o olhar.
Como se esperasse mais, Soraya arqueou levemente as sobrancelhas.
— Notei que você está andando um pouco estranho… parece machucado — comentou, com curiosidade disfarçada de preocupação. — Aconteceu alguma coisa?
Renato largou os talheres com calma e, só então, ergueu os olhos.
— Nada que mereça atenção — respondeu, encerrando o assunto antes mesmo que pudesse se estender.
— Entendo — disse por fim, forçando um sorriso. — Só estranhei. Sei que pode parecer indiscreto da minha parte aparecer sem avisar — disse, com um tom cuidadoso —, mas a preocupação com a minha filha não estava me deixando em paz. A Sara não tem me dado notícias desde que saiu de casa… nem atende às minhas ligações.
Havia algo de excessivamente doce naquela fala. Cínico demais para soar sincero.
— A senhora sabe muito bem o motivo disso — respondeu Sara, mantendo a voz controlada.
Soraya fez um leve gesto com a mão, como se tentasse amenizar a situação.
— Independentemente do que aconteceu, você precisa se lembrar de que tem família. Somos todos muito preocupados com você.
Sara sentiu o sangue ferver. As palavras que queria dizer se atropelavam dentro dela. Queria gritar para que aquela encenação acabasse ali mesmo. Queria exigir que a mãe parasse de fingir algo que nunca foi.
Mas se conteve.
Respirou fundo, baixou ligeiramente o olhar e permaneceu em silêncio. Não por covardia, mas por respeito. Aquela mesa não era o lugar. Renato não merecia ser arrastado para um confronto que vinha de muito antes dele.
— Como pode ver, a sua filha está bem — interveio Renato, com a voz séria e controlada. — Então, creio que a senhora pode ir embora amanhã bem tranquila.
— Amanhã? — Soraya riu, sem graça. — Não quero incomodar, mas gostaria de passar um pouco mais de tempo com a minha filha.
Sara não hesitou.
— Eu não quero — rebateu no mesmo instante, sem espaço para interpretações. — Não creio que tenhamos nada para conversar, mãe.
O choque foi imediato. Soraya a encarou, surpresa demais para disfarçar. Não esperava uma resposta tão direta, muito menos diante de todos.
— Sara… — tentou, num tom mais baixo, quase conciliador.
— Não — interrompeu novamente, sustentando o olhar. — Já falei o que precisava. E prefiro que isso seja respeitado.
Renato permaneceu em silêncio, mas o corpo dele se inclinou levemente na direção de Sara, num gesto sutil de apoio.
Respirando fundo, Soraya recompôs a expressão e assentiu lentamente, ainda que contrariada.
— Entendo — disse, por fim, embora fosse evidente que não aceitava de verdade. — Se é o que você quer, vou respeitar, mas precisa entender que ainda tem família e nós sentimos a sua falta.


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