No quarto, Renato caminhava de um lado para o outro, com um leve sorriso no rosto. Ele havia ouvido a conversa de Sara com a mãe no jardim e não conseguia esconder a satisfação. Ver Sara se posicionando, sem abaixar a cabeça para Soraya e sem se deixar contaminar pela ambição da família, despertava nele uma admiração incomum.
Ela era diferente.
A constatação de que ela não tinha nada em comum com a irmã, nem nos valores, nem nas escolhas, o deixava mais entusiasmado do que gostaria de admitir. Havia firmeza nela. Dignidade. Algo raro.
Assim, Renato percebeu que aquela diferença não apenas o atraía… Como também o fazia querer protegê-la e mantê-la ao seu lado por muito, muito tempo.
— Cheguei — disse ela, ao entrar no quarto e encontrá-lo de pé.
Renato disfarçou rapidamente a euforia que ainda o acompanhava e se sentou na poltrona, adotando uma postura casual.
— Achei que já estaria dormindo — ela comentou, fechando a porta atrás de si.
— Eu já estava indo — respondeu. — Antes, estava resolvendo algumas coisas no telefone.
— Entendi.
— Amanhã cedo, vou precisar ir até a cidade resolver algumas coisas.
Sara ergueu o olhar de imediato.
— Você não vai sozinho, vai?
— Não — respondeu, percebendo a preocupação dela. — Meus seguranças irão comigo. Pode ficar tranquila.
Ela assentiu, mas logo acrescentou:
— Pedi para que a minha mãe também fosse embora amanhã de manhã. Será que você conseguiria arranjar alguém para levá-la?
Renato não hesitou.
— Não se preocupe. Eu mesmo faço isso. Vou levá-la comigo.
A resposta não a agradou. A ideia de Renato e sua mãe no mesmo carro lhe causou um incômodo imediato. Ainda assim, preferiu não dizer nada, somente seguiu para o closet para trocar de roupa. Estava tão mergulhada nos próprios pensamentos que não percebeu quando ele se aproximou por trás.
— Você está tensa — comentou ele, em voz baixa. — Tem alguma coisa te preocupando?
Ela se virou devagar, puxando a roupa para si como se aquilo a ajudasse a se recompor.
— Não… está tudo bem.
Renato não pareceu convencido.
— Você não precisa esconder nada de mim.
Sara hesitou por um instante, depois suspirou.
— Eu não estou escondendo — respondeu. — Só vou me sentir aliviada quando a minha mãe for embora.
— Ela voltará e tudo vai voltar a ser como antes. Apenas eu e você.
No mesmo instante, Renato tocou o queixo dela e ergueu-lhe o rosto com cuidado. O olhar dele queimava de desejo, intenso demais para ser ignorado. Sara percebeu no mesmo segundo.
— Acho que podemos dar certo, Sara — ele continuou.
— Do que está falando? — perguntou, com a voz saindo trêmula, quase num sussurro.
— Estou falando de nós. — Ele não desviou o olhar. — Se as coisas continuarem como estão, podemos dar uma chance para que esse casamento realmente aconteça… de verdade.
As palavras a atingiram em cheio.
Sara sentiu o coração errar o ritmo, como se tivesse perdido o compasso. O ar pareceu faltar, e por um instante tudo ao redor ficou distante demais. Só a voz dele permanecia clara, ecoando dentro dela.
— Como algo pode dar certo sem sentimentos? — Sara tomou coragem para perguntar.
Sério demais para brincar com aquilo, Renato respondeu:
— E quem disse que eu não sinto nada?
Mais uma vez, a resposta a atingiu em cheio.
— Creio que a senhora não tenha mais nada a fazer neste lugar — disparou, direto.
— Na verdade, é até bom te encontrar antes de ir — disse, aproximando-se um pouco mais. — Eu precisava mesmo falar com você.
— O que a senhora quer? — perguntou, impaciente.
— Quero saber como vai ficar a nossa situação — declarou, sem o menor pudor.
Ele a encarou, incrédulo.
— O que quer dizer com “nossa”?
— Você sabe muito bem a que me refiro — rebateu. — Embora as coisas tenham saído do controle no dia do seu casamento, nós fizemos tudo o que você pediu. Não se esqueça disso.
A descaradeza da mulher foi tamanha que ele soltou uma risada curta, cheia de sarcasmo.
— Sim, vocês fizeram o que eu pedi — concordou, arqueando uma sobrancelha.
Aproveitando a brecha, Soraya continuou.
— Então, acho justo que você faça a sua parte também. Mesmo que não seja com a Raquel, você está casado com uma de minhas filhas. Precisa se lembrar de que prometeu não acabar com os contratos da nossa empresa.
— Mas eu não acabei com todos — rebateu. — Deixei um contrato ativo para vocês.
— Sim, deixou — admitiu. — Mas você sabe que isso não é suficiente.
Ele a encarou com frieza.
— A senhora é bem cara de pau, viu, Soraya.
— Não me importo com o que pensa de mim — respondeu, indiferente. — Só quero que você nos ajude, assim como nós o ajudamos a não passar vexame no seu casamento.
Os punhos dele se fecharam instintivamente. Por um segundo, a vontade de mandá-la à merda falou mais alto. Ainda assim, ele respirou fundo e se conteve.

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