O estábulo estava silencioso quando Sara chegou. A iluminação fraca deixava o ambiente ainda mais quieto, e o cheiro de feno se misturava ao ar fresco da noite. Humberto estava sentado perto de alguns fardos, com os cotovelos apoiados nos joelhos e o olhar perdido, como se estivesse mergulhado em pensamentos profundos.
Assim que a viu, ele se mexeu no mesmo instante. Havia um leve tensionar em seus ombros, mas fez o possível para agir com naturalidade.
— Pensei que talvez não viesse — comentou, levantando-se devagar.
— Você comprou o que eu pedi? — perguntou, indo direto ao ponto.
— Comprei, sim. E não levei para a casa justamente para manter tudo discreto, como você pediu.
Ela respirou aliviada.
— Obrigada.
Sara se aproximou um pouco mais.
— Onde está?
Ele apontou para uma pequena mesa improvisada, feita com duas tábuas apoiadas em caixotes.
— Estão aqui.
Sobre a mesa havia uma sacola, um bolo simples ainda embalado e uma garrafa térmica com café quente, que exalava um aroma no ambiente.
Quando ela estendeu a mão para pegar a sacola, ele a deteve com o olhar.
— Esses testes são para você, não é mesmo?
Ela ficou sem graça por um instante, mas assentiu.
— São.
Antes de continuar, ele suspirou pesado.
— Então, se suas suspeitas estiverem certas, a partir de agora as coisas entre você e o Renato vão ficar mais sólidas.
— É o que eu espero — respondeu, vacilante.
No fundo, ela ainda não fazia ideia de como seria a reação de Renato ao descobrir sobre a possível gravidez, mas contava que aquilo mudasse algo para os dois de forma positiva.
— É incrível como as coisas mudam de repente, não é mesmo? — Humberto perguntou, de forma quase distraída.
Ela parou no mesmo instante e o encarou.
— Sim. Algumas coisas mudam muito rápido — concordou.
Humberto se aproximou da pequena mesa onde estava o bolo e abriu a embalagem com cuidado. Em seguida, abriu a garrafa térmica, devagar, como se quisesse prolongar aquele momento.
— Acho que ainda estou preso naqueles dias em que te conheci e nós trabalhávamos juntos — confessou. — Lembro que tomávamos café e ficávamos olhando o tempo passar.
Ela sorriu com a lembrança, e a pressa em seu rosto pareceu diminuir.
— É verdade. Se não fosse você e as coisas que levava para comermos juntos, não sei o que teria sido de mim.
Ao perceber que ela concordava, Humberto colocou um pouco de café em uma xícara e a estendeu para ela.
— Que tal relembrarmos os velhos tempos? — sugeriu, com a mão estendida.
— É que estou com um pouco de pressa.
— O que foi, Sara? É apenas um café — insistiu. — Além disso, o bolo está uma delícia. Quando o vi na padaria, me lembrei logo de você.
Mesmo sem querer ficar ali, Sara se sentiu constrangida diante da atenção dele e acabou aceitando a xícara.
— Tudo bem, mas preciso ser rápida. Não sei quando o Renato chega e quero muito fazer esse teste antes de ele voltar para casa.
— Então seremos rápidos — disse, sorrindo, enquanto partia um pedaço de bolo e também o servia. — Vamos fazer disso como uma despedida.
Percebendo que a xícara estava vazia, ele ignorou o que ela disse e tornou a enchê-la com café.
— Não precisa sentir nada, vai por mim. E, para ser sincero, também recebi uma proposta de trabalho muito boa. Eu gosto muito desse lugar, mas seria um tolo se não aceitasse. É um trabalho mais leve e bem mais remunerado.
Sara se afastou um pouco, pegou a xícara novamente, dando mais um gole no café, e se apoiou num dos fardos de feno.
— Se isso é mesmo verdade, fico muito feliz por você.
— Sério? — ele questionou.
— Claro. Eu quero muito o seu bem. Você fez muito por mim desde que nos conhecemos aqui.
Observando-a com atenção, ele assentiu.
— Então entende que estou indo embora por causa da proposta que recebi?
— Claro que entendo. E num ponto até te apoio.
— Que bom. Me sinto mais leve com isso — comentou, sorrindo. — Tem propostas que aparecem na nossa vida que não devem ser recusadas, Sara. E esse é o meu caso. Estou unindo o útil ao agradável, apenas isso. Vou embora daqui para não te ver mais… e, porque quero mudar de vida.
Ela respirou fundo.
— Então essa realmente é a nossa despedida — disse, levantando-se.
No mesmo instante, porém, sentiu a vista ficar turva e o corpo vacilar.
— Sara?
Ela ergueu a cabeça e viu Humberto se aproximar às pressas.
— Você está se sentindo bem?
Sara tentou responder, mas não encontrou forças. O corpo inteiro começou a tremer, e a última coisa que viu foi a xícara cair de sua mão, antes de tudo escurecer.

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