As palavras vieram diretas, sem nenhuma preparação. Por um instante, Renato ficou completamente em silêncio dentro do carro, seu coração apertou de um jeito estranho, difícil de explicar. Mesmo diante de todos os problemas que Lorena havia causado, mesmo com toda a raiva que ainda sentia por ela… ele jamais desejaria algo ruim para uma criança inocente.
— Como isso aconteceu? — perguntou, ainda tentando entender.
Do outro lado da linha, o médico manteve o tom profissional.
— Senhor Salles, além do sangramento que a senhorita Lorena deu entrada no hospital, eu havia comentado com o senhor sobre a incompatibilidade do fator Rh entre ela e o bebê. Quanto a isso, conseguimos controlar inicialmente. No entanto, durante a madrugada, mesmo com toda a observação e os cuidados médicos, ela voltou a apresentar um novo sangramento, que acabou evoluindo para um aborto espontâneo.
— Compreendo — disse com a voz triste.
O médico hesitou por um instante antes de continuar.
— Senhor Salles… há também um outro ponto importante que precisamos considerar.
Sentindo a hesitação na voz do médico, ele questionou:
— Que ponto?
— Durante a conversa que tivemos anteriormente, o senhor me informou que o seu tipo sanguíneo também é Rh negativo. Confere?
— Sim — respondeu imediatamente. — O negativo.
Houve um pequeno silêncio do outro lado da linha.
— Nesse caso, existe uma questão biológica que precisa ser levada em conta.
— Que questão?
— Quando ambos os pais possuem fator Rh negativo, o bebê obrigatoriamente também terá fator Rh negativo. Dois pais Rh negativos não podem gerar um feto Rh positivo.
— O senhor está querendo dizer… — começou ele, com a voz mais baixa.
— Que, biologicamente, era extremamente improvável que o senhor fosse o pai dessa criança — concluiu o médico com cuidado.
Fechando os olhos por um instante, Renato sentiu uma enxurrada de pensamentos passar pela sua mente.
Lorena, suas mentiras e toda a pressão que ela havia criado.
Ele apertou a mandíbula.
— Então… aquele bebê nunca foi meu.
— Pelos dados que colhemos, tudo indica que não — respondeu o médico.
Naquele instante, ele ficou em silêncio. Estava sentindo um misto de tristeza, raiva e uma estranha sensação de libertação.
— Eu… entendo — murmurou por fim.
— Lamento que tenha que descobrir isso dessa forma — disse o médico —, mas foi o senhor quem solicitou que reportasse tudo.
Ele abriu os olhos novamente, passando a mão pelos cabelos.
— Claro. O senhor não tem noção de como sou grato por isso.
— De qualquer forma, eu não gostaria de ter tido essa conversa por telefone. Creio que não foi muito ético da minha parte.
— Foi, sim, doutor. Pode ter certeza disso — respondeu.
Renato respirou fundo antes de continuar.
— Diante de tantas mentiras que acabei encontrando nos últimos meses, o senhor foi uma das poucas pessoas que tiveram a honestidade de me dizer a verdade. E, nesse momento, é exatamente disso que eu precisava.
— Obrigado pela consideração, senhor Salles. Não vou mais prolongar essa conversa, imagino que o senhor tenha muitas coisas para resolver neste momento — disse o médico.
— Espere — pediu imediatamente.
Do outro lado da linha, o médico ficou em silêncio por um instante.
— Sim?
— Como a Lorena está agora?
— Fisicamente, bem — respondeu o médico. — Ela está estável, mas, emocionalmente… está muito abalada.
— Entendo…
Houve um pequeno silêncio entre os dois, até que Renato disse:
— Doutor… cuide bem dela.

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