— Sérgio, não invente de tomar nenhuma decisão sem avisar a nossa filha.
— Avisar? — repetiu, soltando uma risada irônica. — Engraçado… quando ela decidiu nos jogar nessa situação, não avisou a ninguém.
— Você sabe que ela sofre com isso.
— E o que me importa o sofrimento dela? — rebateu, frio. — Eu não estou em posição de ficar parado enquanto ainda existe uma saída.
Soraya franziu o cenho.
— Que saída é essa? De quem é esse cartão?
Ele nem se deu ao trabalho de responder.
— Não me faça perguntas agora, mulher. — respondeu secamente. — Só me deixe sozinho. Preciso fazer uma ligação muito importante.
Soraya o encarou por alguns segundos, tentando encontrar algum resquício de bom senso naquele olhar, mas não havia. Só havia decisão e aquilo a fez recuar.
— Tudo bem… — disse, por fim, resignada. — Vou sair. Mas espero que você saiba muito bem o que está fazendo.
Ele não respondeu, nem sequer olhou para ela. Apenas esperou a porta se fechar e então pegou o telefone e discou o número do cartão.
No terceiro toque, a ligação foi atendida.
— Aqui é Sérgio Lemos — disse direto. — Estou ligando para saber se a proposta que me fez antes ainda está de pé.
Do outro lado, houve um breve silêncio, como se a pessoa estivesse avaliando cada palavra.
— Está, sim.
A resposta veio calma e segura.
Aquilo fez Sérgio se ajeitar na cadeira, relaxando o corpo levemente, como se finalmente enxergasse uma saída concreta.
— Ótimo — murmurou. — Então vamos direto ao ponto… como devemos proceder?
No mesmo instante, a pessoa do outro lado da linha começou a passar as instruções, uma a uma, com uma calma que chegava a ser perturbadora. Sérgio ouviu tudo em silêncio, atento a cada detalhe, como se estivesse absorvendo não apenas as palavras… mas o peso da decisão que acabava de tomar.
Assentiu algumas vezes, mesmo sem ser visto.
Quando a ligação terminou, o silêncio tomou conta do escritório.
Ele permaneceu imóvel na cadeira, com o telefone ainda na mão, olhando fixamente para um ponto qualquer da parede.
Sabia exatamente que, quando Raquel descobrisse, o odiaria. Talvez para sempre.
Mas, naquele momento… nada disso parecia importar.
O que importava era não perder tudo e ser reduzido a nada.
Depois de alguns segundos, soltou o ar lentamente, colocou o telefone sobre a mesa e se levantou, decidido.
Saiu do escritório e seguiu pelo corredor até o quarto da filha. Parou diante da porta e bateu.
— Pode entrar.
Sérgio girou a maçaneta e abriu a porta.
Assim que entrou, encontrou a filha sentada na cama, ao lado da mãe.
A cena fez seu olhar escurecer na mesma hora.
— O que você está fazendo aqui, Soraya?
— Nada demais — respondeu ela, naturalmente. — Só estou conversando com a nossa filha.
Ele soltou um riso descrente.
— Duvido muito.
Raquel franziu o cenho, olhando de um para o outro.
— O que está acontecendo?
Sérgio deu alguns passos para o interior do quarto.
— Tenho certeza de que você veio até aqui para contar à Raquel sobre os planos que tenho para ela. — Disse para a esposa, ignorando a filha.
O clima no quarto mudou instantaneamente.
— Planos? — Raquel repetiu, olhando diretamente para o pai. — Que planos?
Soraya se levantou devagar.
— Sérgio, não faz isso…
Mas ele ignorou completamente.
— Arranjei um bom partido para você.
Mas ele a cortou na mesma hora.
— Cala a boca, mulher! — disparou, alterado. — Ou você me ajuda com isso… ou nós três vamos acabar debaixo de uma ponte!
Chocada, Soraya recuou.
— O senhor perdeu completamente o controle — disse Raquel, com a voz chorosa.
— Eu estou tentando salvar essa família!
— Não — ela rebateu, encarando-o sem recuar. — O senhor está querendo destruir a minha vida!
— Pare de drama e aceite de uma vez — disse ele, voltando-se para ela com impaciência. — Você vai se casar amanhã… com o homem que escolhi.
Por um segundo, o mundo pareceu parar. Raquel ficou imóvel, encarando o pai, como se não tivesse ouvido direito.
— O quê?
— Você ouviu muito bem — ele confirmou, frio. — Está tudo resolvido.
O choque se transformou em revolta.
— Eu não vou fazer isso! — ela gritou, deixando a voz ecoar pelo quarto.
Soraya levou a mão à boca, completamente abalada.
— Sérgio… isso é loucura!
— Loucura é perder tudo e ficar parado — ele rebateu, sem elevar o tom, mas com uma firmeza que assustava.
Raquel deu um passo para trás, negando com a cabeça.
— O senhor não pode decidir isso por mim!
— Posso, sim — respondeu, seco. — E já decidi.
— Eu não sou um objeto! — ela retrucou, com a voz tremendo entre raiva e desespero. — Não sou uma coisa que o senhor negocia!
— Então comece a agir como alguém que entende a situação em que está — ele cortou.
— Eu entendo! — ela respondeu, quase chorando. — Só não aceito!
— Não é sobre aceitar, Raquel. É sobre fazer o que precisa ser feito.

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