Na manhã seguinte, enquanto tentava estudar em frente ao computador, Sara não conseguia se concentrar. As palavras de Odete, ditas no dia anterior, não saíam da sua cabeça. Elas ficavam ali, repetindo a cada minuto, insistindo em lembrá-la que aquilo a incomodava mais do que gostaria de admitir.
“Ele te ama… mas não vai ficar te esperando para sempre.”
— E daí… — sussurrou, fechando o notebook com um pouco mais de força do que pretendia.
Levantou-se do sofá, inquieta.
— Eu não me importo com isso.
Tentava se convencer, como se, a qualquer momento, aquilo fosse se tornar verdade. Mas não se tornava, porque só a ideia de não vê-lo mais com frequência, de ele simplesmente parar de aparecer, de insistir e de tentar, a deixava estranhamente incomodada.
Andando de um lado para o outro na sala, começou a murmurar.
— Isso é ridículo… — murmurou. — Eu não devia estar lamentando sobre isso e sim agradecendo.
— Está conversando sozinha?
Odete apareceu na sala, observando-a com um olhar atento.
Rapidamente, Sara mudou a postura, tentando disfarçar a inquietação.
— Oh, não… — respondeu, forçando naturalidade. — Só estou repassando mentalmente o que estudei agora há pouco.
— Entendi… — disse Odete, com um leve aceno de cabeça, fingindo acreditar. — O Renato vem aqui hoje, certo? — perguntou, como quem não queria nada.
— Vem… à tarde. Vai me levar para uma consulta.
— Entendi.
Houve uma breve pausa.
— Por que está perguntando sobre ele?
— Não é nada — respondeu, com um leve levantar de ombros. — Só lembrei que, depois das consultas… vocês quase sempre acabam saindo para comer. Então nem vou me preocupar em preparar o jantar.
Sara hesitou por um segundo, porque Odete tinha razão. Sempre que tinha uma oportunidade de sair com ela, Renato dava um jeito de prolongar o encontro.
Um jantar, um café, ou até uma desculpa qualquer para passar em alguma loja de bebê. Qualquer coisa que garantisse mais alguns minutos ao lado dela.
— Não sei se vai ser assim hoje… — respondeu, desviando o olhar.
Odete soltou um leve sorriso, mas não disse nada, porém Sara decidiu continuar:
— Você não acha estranho?
— O quê?
— Ele faz tudo isso… mesmo sabendo que eu não quero nada com ele.
Odete a encarou com calma.
— Ele não está fazendo porque você quer.
Sara franziu o cenho.
— Então é por quê?
— Porque ele quer.
Houve uma pausa antes de a mulher continuar.
— Quando alguém faz algo porque sente… ela insiste.
Sara engoliu seco, porque, no fundo, sabia disso.
— Mas até quando? — perguntou, mais baixa.
Odete deu um pequeno sorriso.
— Até você parar de fugir… ou até ele cansar.
Mais uma vez, Odete tocou naquele assunto que vinha tirando sua paz.
Tentando manter a expressão neutra, como se nada daquilo a afetasse, Sara apenas comunicou:
— Vou para o meu quarto — disse, cortando a conversa antes que avançasse mais.
— Tudo bem. — Odete respondeu, sem insistir.
Quando entrou no quarto, ela fechou a porta atrás de si e encostou as costas nela por um instante, fechando os olhos.
— Isso já está ficando ridículo… — sussurrou para si mesma.
[…]
Quando a hora da consulta se aproximava, Renato chegou ao apartamento para buscá-la.
Ela estava usando um vestido longo naquele dia, que realçava suavemente a curva da sua barriga. Ao vê-la, os olhos dele brilharam por um instante, um daqueles momentos que ele não conseguia esconder, por mais que tentasse.
Mas não comentou, apenas manteve o controle.
— Está pronta? — perguntou, com a voz calma.
— Sim… vou só pegar a minha bolsa — respondeu ela, desviando o olhar antes de se virar e seguir até o quarto.
Minutos depois, voltou para a sala e o encontrou diferente, encostado levemente no sofá, com o olhar fixo no celular, digitando algo com atenção. De tão concentrado que estava, Renato nem percebeu a presença dela ali.
Parando por um segundo, observou que a forma como os dedos dele se moviam rapidamente pela tela demonstrava que estava lidando com algo importante ou urgente.
— Renato… — chamou, quebrando o silêncio.
Ele levantou o olhar imediatamente, como se tivesse sido puxado de volta.
— Já pegou tudo?
A consulta seguiu por mais alguns minutos, até que o médico finalizou.
— Está tudo sob controle — disse, levantando-se. — Agora é só questão de tempo.
— Obrigada, doutor.
Quando saíram do consultório, o silêncio entre ambos veio junto. Ele caminhava ao lado dela, mas um pouco mais distante do que antes, como se estivesse incomodado com algo.
Claro que ela percebeu e aquilo a deixou inquieta. Uma culpa silenciosa começou a pesar dentro de si. Sentiu que não deveria ter dito nada ao médico… bastava ter assentido, deixado passar. Agora, parecia que tinha ferido algo que já estava frágil.
Decidida a consertar, pensou em pedir desculpas assim que se sentassem à mesa de algum restaurante, como sempre acontecia depois das consultas.
Mas nada saiu como ela imaginava.
Os dois caminharam até o estacionamento em silêncio e entraram no carro.
Antes de dar partida, Renato pegou o celular novamente, digitando algo com atenção, como se estivesse resolvendo algo urgente. Quando terminou, guardou o aparelho e ligou o carro.
Sara esperou, achando que ele tomaria um caminho diferente, mas não fez. O trajeto seguiu direto, sem desvios. Alguns minutos depois, ele estacionou em frente ao apartamento dela.
Sara franziu o cenho, confusa.
— Renato…
Ele desligou o carro.
— Você pode subir — disse, evitando encará-la por muito tempo.
Ela hesitou.
— Você não vai entrar?
A pergunta saiu carregada de estranhamento.
Dando uma rápida olhada no relógio de pulso, ele respondeu:
— Não vai dar. Tenho um compromisso.
A resposta veio seca e apressada e aquilo a atingiu de um jeito que ela não esperava.
— Ah…
Foi tudo o que conseguiu dizer.
— Depois a gente se fala.
Sem dizer mais nada, ele desceu do carro, abriu a porta para ela com educação e, assim que Sara saiu, voltou para o volante.
O carro se afastou e ela ficou ali, parada, com uma sensação estranha apertando o peito.
Não era só incômodo, era algo mais, como se, pela primeira vez, ele tivesse realmente se afastado.

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