Quando entrou no apartamento, a primeira coisa que encontrou foi o olhar confuso de Odete, que a observava como se estivesse vendo algo fora do lugar.
— Ué… já voltou? — perguntou, franzindo o cenho. — Cadê o Renato?
Sara fechou a porta atrás de si, ainda meio perdida nos próprios pensamentos.
— Foi embora.
— Embora? — repetiu Odete, sem esconder a surpresa. — Assim… do nada?
Tentando parecer indiferente, Sara deu de ombros, mas não convenceu nem um pouco.
— Disse que tinha um compromisso.
O silêncio caiu por um instante e Odete a analisou com mais atenção.
— Que estranho… Deve ter sido algo bem importante mesmo para ele marcar um compromisso bem no dia da consulta.
Sara travou por um segundo, mas depois soltou.
— Algo importante ou mais interessante.
Naquele instante, Odete percebeu que Sara estava muito mais abalada do que queria demonstrar.
— Não pense assim — disse, com cuidado. — Você sabe que o Renato é um homem muito ocupado.
— Sim, ele é — respondeu, erguendo levemente o queixo, como se aquilo bastasse para se sustentar.
Mas não bastava.
— Ou então… — continuou, como se precisasse soltar o restante das palavras que estavam presas em sua garganta — ele só está começando a se cansar.
A frase escapou antes que pudesse segurar e revelou mais do que gostaria.
Odete a encarou com atenção.
— Cansar de quê?
Tentando disfarçar, Sara deu de ombros mais uma vez.
— Do que você mesma falou ontem — rebateu. — De insistir… de correr atrás… de tentar algo que eu mesma deixei claro que não quero.
— E isso te incomoda? — perguntou Odete, direta.
Desviando o olhar, ela não respondeu na hora, mas a resposta estava em seu rosto, clara até demais.
— Nem um pouco — disse por fim.
No mesmo instante, Odete soltou uma risada, mas decidiu não insistir naquele assunto.
— Tudo bem — comentou, começando a caminhar em direção à cozinha. — Já que chegou mais cedo, vou preparar o jantar para você.
Colocando a bolsa de lado, Sara caminhou até o sofá e se sentou devagar, passando a mão pela barriga como um gesto automático.
— Eu devo ter exagerado hoje… — admitiu, mais baixa. — Lá no médico.
Odete parou no mesmo instante.
— O que acabou de dizer?
Suspirando pesado, Sara confessou.
— Hoje, durante a consulta, o médico chamou o Renato de meu marido e eu corrigi na hora.
Como se já esperasse por algo assim, Odete fechou os olhos por um instante, antes de perguntar:
— E ele?
— Não disse nada.
— Nada? — murmurou.
— Mas percebi que ele não gostou, olhando apenas nos olhos dele.
— Isso é bem provável.
— Eu só quis deixar claro — Sara se justificou. — Afinal, não somos nada, não é mesmo?
— O fato de vocês não terem nada agora não justifica o Renato se sentir confortável ao te ver dizendo isso para qualquer pessoa.
— Sei disso, e até pensei em me desculpar com ele depois, mas ele estava estranho — continuou, mais pensativa. — E isso começou desde o momento em que ele veio me buscar aqui.
— Como assim?
A confissão saiu quase inaudível, mas foi suficiente, porque naquele momento, ela parava finalmente de negar e isso mudava tudo.
[…]
A noite chegou, e sentada à mesa, Sara comia, não por vontade, mas por necessidade. Sabia que precisava se alimentar, precisava nutrir o filho que crescia dentro dela, mesmo que sua mente ainda estivesse bem longe dali, perturbada e inquieta.
Odete sempre se sentava à mesa com ela, mas naquela noite preferiu se recolher mais cedo, alegando uma dor de cabeça.
— Foi por causa da nossa conversa? — Sara chegou a perguntar.
— Não, minha filha… está tudo bem — respondeu Odete, com suavidade. — Nada do que falamos me afetou.
Mesmo assim, Sara insistiu:
— Me desculpa… eu não queria ter respondido daquele jeito.
Odete apenas sorriu, com o olhar acolhedor de sempre.
— Eu sei. Está tudo bem.
E se retirou.
Agora, sozinha, encarava o prato à sua frente, sentindo o peso daquela noite silenciosa. Do lado de fora, as primeiras gotas de chuva começavam a cair, marcando o vidro da janela com um ritmo quase melancólico.
Quando terminou, levantou-se, colocou os pratos na lava-louça e seguiu em direção ao quarto.
Mas não chegou até lá, o som da campainha a fez parar abruptamente.
Seu coração acelerou.
Confusa, mudou de direção e caminhou até a porta. Antes de abrir, olhou pela câmera e travou.
Era Renato.
Sem pensar, abriu a porta, mas, no instante em que seus olhos se encontraram, percebeu que algo não estava certo.
O olhar dele parecia desfocado e pesado, foi então que percebeu.
Ele estava bêbado.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Esposa substituta: Prometo te odiar!