— Renato… o que você está fazendo aqui? — perguntou, ao perceber que ele se esforçava para se manter de pé.
Ele tentou se recompor, mas o equilíbrio falhava.
— Vim te pedir desculpa — disse, com a fala levemente arrastada. — Por mais cedo… eu não pude ficar com você.
Sara franziu o cenho, aproximando-se.
— Meu Deus… olha o seu estado — murmurou, segurando o braço dele para evitar que perdesse o equilíbrio. — Você mal consegue ficar de pé. Como conseguiu chegar até aqui sozinho?
Soltando um riso baixo, sem humor, ele respondeu:
— Estou melhor do que pareço…
— Não está, não — rebateu. — Entra.
Sem esperar resposta, passou o braço dele por cima dos próprios ombros e o ajudou a entrar no apartamento, fechando a porta logo em seguida.
Renato deixou o corpo ceder um pouco mais do que deveria.
— Eu não queria vir assim… — murmurou, com dificuldade. — Mas não consegui ir para casa sem te ver.
Sara o conduziu até o sofá com cuidado.
— Senta.
Ele obedeceu, soltando o ar pesado ao se acomodar. Por um instante, ficou ali, em silêncio, com os olhos fechados e a respiração irregular.
Ao seu lado, Sara o observava, preocupada.
— Por que você bebeu tanto? — Ela perguntou, ainda segurando o braço dele, preocupada.
Renato soltou um riso baixo, sem humor.
— Eu tinha um compromisso… — começou, passando a mão pelo rosto — e acabei juntando o útil ao… suportável.
Ela franziu o cenho.
— Como assim?
Ele ergueu os olhos para ela, mais sério.
— Não se faça de desentendida, Sara.
O tom veio como um aviso.
— Parece que você tem prazer em deixar claro para todo mundo que eu não significo nada na sua vida.
As palavras saíram sinceras.
Ali estava, o que ela já tinha percebido desde a consulta. A mágoa, exposta, sem filtro.
Sara travou por um instante.
— Eu não fiz isso por prazer — respondeu, tentando se desculpar.
— Mas fez — rebateu, direto. — E fez questão de reforçar.
— Eu só quis deixar clara a situação — disse ela, sem soltá-lo.
— Para quem? — ele questionou. — Para o médico ou para você mesma?
Aquilo a atingiu.
— Não distorça as coisas.
— Eu não estou distorcendo nada — respondeu. — Estou falando do jeito que eu senti.
Houve uma pausa antes de ele continuar.
— E, para mim, foi como se você estivesse me colocando no meu lugar.
Sara engoliu em seco, antes de perguntar:
— E qual é o seu lugar?
Ele sustentou o olhar por alguns segundos.
— Pelo visto, nenhum.
Quando disse aquilo, Renato se soltou do toque dela e se afastou um pouco, como se precisasse de espaço para organizar os próprios pensamentos.
Passou a mão pelos cabelos, respirando fundo.
— Acho que estou começando a te entender… — continuou, como se precisasse desabafar.
Sara o observou em silêncio, deixando-o livre para falar o que queria.
— Vejo que, se não fosse por esse filho… — ele disse, olhando diretamente para ela — você não ia querer me ver nunca mais.
A frase caiu pesada.
— Então você ainda sente.
A afirmação veio calma.
— Isso não muda nada — Sara soltou a resposta, rápido demais.
— Para mim, muda tudo. Porque, se você não sentisse nada… — ele continuou, se aproximando um pouco — eu já teria ido embora há muito tempo.
O coração dela acelerou.
— Mas você sente e é por isso que eu ainda estou aqui, insistindo… me humilhando diante de você, todo santo dia.
Enquanto via Renato se aproximar, Sara sentiu o corpo inteiro se arrepiar. A proximidade dele sempre tinha esse efeito. Era como se todas as defesas que vinha construindo, com tanto esforço, simplesmente desaparecessem.
Ele parou tão perto que ela conseguia sentir o calor de sua respiração e, quando Renato inclinou o rosto, aproximando-se do seu ouvido, o mundo ao redor pareceu sumir.
— Você me enlouquece, Sara… — sussurrou, com a voz baixa, rouca. — E tudo o que eu quero é ter você de volta.
Ela abriu a boca para responder, mas nenhuma palavra saiu. O calor do hálito dele contra sua pele, o tom da voz, a proximidade… Tudo a desarmava.
Por um instante, esqueceu da mágoa, do passado, das promessas que havia feito a si mesma. Só conseguia sentir o coração acelerado, a respiração irregular e a vontade tão forte quanto perigosa de se deixar levar.
Seus olhos se fecharam quase sem perceber, como se, naquele breve momento, nada mais importasse.
— Me dá mais uma chance, Sara — suplicou em seu ouvido. — Se quiser que me ajoelhe aos seus pés, eu faço.
Nesse momento, os lábios dele roçaram de leve o lóbulo da sua orelha. O toque foi sutil, mas suficiente para fazer o corpo dela reagir inteiro.
Ela prendeu a respiração.
— Eu faço o que você quiser… — ele continuou — só me deixa ser mais do que o pai do seu filho.
As mãos dela, que antes estavam imóveis, hesitaram, até se apoiarem de leve no peito dele, como se buscassem um ponto de equilíbrio.
— Renato, não deveríamos falar sobre isso com você nesse estado — murmurou, sentindo a voz falhar.
— Então… você quer que eu vá embora e volte depois? — ele perguntou, afastando-se apenas o suficiente para olhá-la nos olhos.
Naquele instante, havia algo diferente em seu olhar. Havia algo profundo e sincero, que a desarmou a ponto de que, mesmo que quisesse negar… Não conseguiria.
— Não… — respondeu, com a voz mais baixa do que pretendia. — Eu não quero que você vá.
A confissão escapou antes que pudesse se conter e, uma vez dita, já não havia como retroceder.

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