No entanto, quando acordei pela manhã e não a vi ao meu lado na cama, senti no fundo do peito que algo não estava certo. Mesmo assim, não quis tomar nenhuma decisão precipitada.
Me levantei, fui até a cozinha e conversei com Odete, que me disse que Sara estava no quarto descansando. Quis ir até lá, mas me contive. Sabia que estaria sendo inconveniente. Tínhamos o dia inteiro pela frente. Ainda dava tempo para conversar, para acertar as coisas do jeito certo. Era isso que me tranquilizava.
Mas o dia não começou como planejei. Quando peguei meu celular e vi a mensagem de Kelly, percebi que deveria responder o mais rápido possível.
Não demorou muito para ela me retornar, dizendo que o comprador havia dado o sinal e queria fechar o negócio ainda naquele dia. Só que havia um problema, ele queria que eu fosse pessoalmente até a cidade dele para assinar alguns documentos.
Eu sabia que aquele não era o momento ideal, ainda mais quando estava tentando me entender com Sara, mas quando me encontrei com Kelly e ela me contou o quanto o comprador exigia aquilo, não pude negar. Ela havia se esforçado ao máximo para viabilizar a venda da fazenda em tão pouco tempo. Deixar aquela oportunidade escapar seria quase uma ofensa a todo o empenho de Kelly.
— Tudo bem, vamos agora mesmo.
— É assim que eu gosto. — Kelly sorriu.
— Só preciso fazer uma ligação antes.
Ela me encarou com um olhar confuso, antes de comentar.
— Não me diga que o grande e poderoso Renato Salles vai ligar para alguém para dar satisfação da sua vida.
Havia uma pontada de ironia naquilo e, embora eu fosse do tipo que deixava esse tipo de coisa passar, dessa vez não consegui.
— Não darei satisfação para qualquer pessoa. E sim, para a minha esposa, que está esperando um filho meu.
A resposta a pegou de surpresa. Deu para perceber.
— Um filho? — Repetiu. — Nossa. Eu realmente estou me surpreendendo com essa sua nova versão.
— Pode zombar à vontade. — Disse, sem me importar. — Mas estou me sentindo muito bem em ser pai.
Kelly me olhou por alguns segundos, como se estivesse tentando reconhecer o homem na minha frente. Depois soltou um sorriso diferente, mais sincero do que os anteriores.
— Ela deve ser muito especial. A ponto de te fazer vender até a fazenda que você tanto amava.
Não precisei pensar antes de responder.
— Ela é mais que especial. — Confessou. — Ela é a mulher da minha vida.
Kelly não disse nada por um momento. Apenas me encarou, com aquele olhar de quem está vendo algo que não esperava ver. E, honestamente, eu também não esperava. Não esperava chegar a um ponto em que diria aquilo tão facilmente, sem travar, sem recuar.
Mas era a verdade e, pela primeira vez, eu não tinha mais medo de admitir isso.
— O que ela acha sobre a venda da fazenda? — Kelly perguntou, por fim.
— Ela não sabe. Será uma surpresa.
— Sério? — Os olhos dela arregalaram. — E se ela não gostar?
— Eu a conheço o suficiente para saber que aquela fazenda não é o melhor lugar do mundo para ela.
Kelly me encarou por um momento, como se estivesse pesando aquilo.
— Então você está vendendo uma fazenda que vale milhões, só porque a sua esposa não gosta do lugar?
— Exatamente.
Ela balançou a cabeça devagar, com um sorriso no canto da boca.
— Você está mesmo apaixonado.
Não precisei responder, apenas peguei o meu celular e liguei para Doris, já que Sara poderia ainda estar dormindo e eu não queria atrapalhá-la.
Decidi que iria resolver tudo rápido e voltaria antes do fim do dia. Ainda haveria tempo para Sara.
Depois de algumas horas de voo no meu jato, me encontrei com o comprador, que me convidou para um almoço. Quis negar, dizer que poderíamos ir direto para a assinatura dos papéis, mas aquilo pareceria desespero da minha parte. E desespero era a última coisa que eu podia demonstrar numa negociação daquele tamanho.

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