Percebendo que eu não tinha a menor paciência, ela respondeu em voz baixa:
— Ela não está mais hospedada nesse quarto.
— O quê? — perguntei, confuso, sem entender o que aquilo significava.
— A sua mãe disse que era para tirar a Sara daqui — falou, olhando para o chão.
— E para onde diabos ela a mandou? — perguntei, já com a raiva subindo, sentindo vontade de socar a parede.
— Para o quarto dos empregados — explicou ela.
Não acreditei no que acabara de ouvir. Segurei o impulso de explodir e forcei a paciência que me restava.
— Por que ela mandou a Sara para o quarto dos empregados? — insisti, com a voz cortante.
— É que… — ela hesitou, e isso só aumentou minha irritação.
— Que merda, Lorena! — explodi. — Abre a boca e fala logo, ou eu perco a paciência e te mando embora daqui!
No mesmo instante, ela ergueu o olhar e me encarou, como se minha ameaça lembrasse a ela quem tinha o poder ali.
— Não, por favor, não faça isso — implorou.
Ela engoliu em seco e contou, tremendo:
— Eu não tive escolha. A dona Constança ordenou que a Sara saísse daqui. Disse que ela não era ninguém importante nesta casa e que, se fosse ficar, teria de trabalhar como os outros empregados, já que não faz parte da família.
Aquilo estava me tirando do sério. Passei a mão pela cabeça e cocei a barba, tentando controlar a raiva, mas tudo ali me testava.
— Quando ela fez isso? — perguntei, sério.
— Na mesma manhã em que você saiu daqui — respondeu ela, apressada.
— Então quer dizer que você passou por cima das minhas ordens e fez o que a minha mãe mandou? — pressionei.
— Eu não tive escolha! — argumentou, com a voz trêmula. — A dona Constança ordenou e eu tive que obedecer.
Aproximei-me, pisando entre os cacos da louça quebrada no chão.
— Olha bem para mim — disse, baixando o tom — quem é o dono desta casa?
— Você — ela murmurou.
— Quem paga o seu salário?
— Você.
— Então, por que, pelo amor de Deus, fez isso?
Percebi que a ameaça surtia efeito: os olhos de Lorena começaram a lacrimejar.
— A Sara foi enviada para o chiqueiro.
Por um segundo, achei que tivesse ouvido errado.
— O quê? — indaguei, incrédulo.
— É isso mesmo, Renato — confirmou, ainda tremendo a voz. — Foi sua mãe quem mandou. Disse que era para ela alimentar e limpar o chiqueiro dos porcos.
Fiquei paralisado, tentando processar o que acabava de ouvir. Era absurdo demais para ser verdade. Um riso incrédulo escapou dos meus lábios, mas não havia humor algum nele, era apenas desespero disfarçado.
— Isso só pode ser uma piada sem graça — murmurei, balançando a cabeça em negação.
Por mais que eu não suportasse a irmã da Raquel, jamais a colocaria num lugar daqueles. Era humilhante… e desumano.
Lorena tentava se explicar, mas a cada palavra, a raiva crescia dentro de mim, fervendo como uma chama prestes a explodir. Eu já não sabia se queria gritar, quebrar algo ou simplesmente sair correndo dali. Tudo o que eu sabia era que minha mãe havia ido longe demais.
— Isso não vai ficar assim, está me ouvindo? — falei, duro, enquanto caminhava de volta para o carro. Precisava ver com meus próprios olhos em que situação a Sara se encontrava. Eu a havia trazido para a minha casa num impulso de raiva, com uma intenção tola de vingança contra aquela família, mas jamais quis que aquilo virasse aquilo; jamais a colocaria num lugar assim.
Quando avistei o chiqueiro de longe, senti o odor forte que provinha dele. Estacionei, desci do carro e fui a pé até o portão enlameado. Ela estava ali, mais magra do que eu lembrava, vestindo um uniforme sujo que denunciava o trabalho degradante. O rosto aflito, as lentes sujas dos óculos, parecia roubada de si mesma.
Ela não me notou; estava absorta, talvez pelo movimento de um carro que vinha em outra direção. Aproveitei os poucos passos que me restavam e, sem hesitar, aproximei-me. Segurei o braço dela com firmeza, sentindo a pele quente e a surpresa que passou pelo seu rosto quando finalmente se virou para encarar.
— Renato? — Ela balbuciou, cheia de espanto.
— Venha comigo. Agora. — Ordenei, guiando-a pelo braço, até onde o meu carro estava estacionado.

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