Dois anos depois...
As pilhas de pratos são enormes — nunca vi tantos, nem mesmo nas maiores festas de matilha. Entra uma ômega com olhos tristes e o corpo marcado por hematomas. Ela se arrasta com uma bandeja cheia de pratos. Essa é a parte do meu trabalho nada glamourosa.
— Oi, como se chama? — pergunto, fingindo timidez.
— Liandra — ela sorri. Alvo à vista.
— Cale-se, ômega. Faça seu trabalho de boca fechada — rosna o lobo que a vigia o tempo todo.
Liandra é uma ômega que recebeu o vínculo da deusa da lua com um alfa cruel. Ele nunca aceitou ter uma ômega como companheira e se acasalou com uma beta, fazendo dela sua Luna oficial. Mas estuprava Liandra sempre que podia. A tal Luna, envenenada por inveja e rancor, também a maltratava.
— Tem um caldeirão de ensopado no fogão, pronto para servir à matilha. Pensei que duas pessoas poderiam agilizar... o alfa não ficaria feliz se passássemos vergonha e faltasse comida no banquete — murmurei, abaixando o olhar e fingindo medo.
— Vá — ele acena, liberando Liandra.
Assim que cruzamos a porta, ao invés de irmos para o fogão, puxo seu braço. Já tínhamos conversado antes, e eu havia antecipado o plano. Por incrível que pareça, nem todas tinham a coragem de Mili, a primeira resgatada. Algumas foram vítimasde mestres sádicos, que fingiam deixá-las escapar apenas para recapturá-las e minar suas esperanças. Por isso, muitas acham que o resgate é só mais uma armadilha.
— E se ele nos alcançar...? — ela sussurra, trêmula.
— Atacamos — respondo no mesmo tom.
— Deusa, me ajude... — Liandra começa a rezar.
Caminhamos com cuidado para não chamar atenção. Entramos no SUV, tirando a parte de cima do uniforme e jogando fora as perucas loiras. Eron borrifava uma poção por todo o carro, neutralizando o cheiro dela. Comemoramos quando passamos pelo portão.
Alguns quilômetros depois, descemos. Trocamos para o meu carro.
— Conseguimos mesmo?! Obrigada... Nunca mais quero ver aquele monstro na minha vida! — era uma mistura de raiva e alívio no rosto de Liandra.
— Seu companheiro foi realmente inesquecível... — comentei, amarga.
— Só não tenho pra onde ir. Meu pai me entregou aquele infeliz. Não posso voltar lá.— Vamos pensar em alguma coisa — prometi, acelerando ainda mais.
Deixei Liandra com a médica, como fiz com as outras, e segui para casa.
— Conseguimos — sussurrei, exultante. Cada detalhe do plano deu certo.
— Vamos encher a cara.

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