Eliz
Depois de ouvir a conversa entre Adam e a curandeira — e de ouvi-lo marcar o procedimento — resolvi fugir novamente.
Não sou burra, nem quero morrer; ainda acho que vou conseguir.
Não resisti ao aconchego gostoso nos braços de Adam; mas, quando ele saiu do quarto, percebi que precisava fugir. Catei o vestido que havia colocado cuidadosamente ao lado e pulei pela janela. Corri pela lateral da casa. Ao ver dois carros conhecidos estacionados, fiz um agradecimento mental à deusa: Atenor estava no carro ao volante. Corri e me joguei no banco de trás.
— Dirija, rápido!
Atenor ligou o motor e saiu devagarinho para não chamar atenção.
— O plano não envolvia você ficar até o fim da gestação com ele? — perguntou, observando as marcas em meu corpo.
— Para de me olhar! Vamos para o plano B. A curandeira disse a Adam: “é o filhote ou eu”. — Falei, passando o vestido pela cabeça apressadamente.
— Minha companheira me deu permissão para olhar você; aliás, ela me ordenou que cuidasse das suas necessidades. Quanto ao Adam, já imagino a reação.
— Ele marcou o procedimento na mesma hora.
Passamos pelos sentinelas; Atenor e eu não tivemos motivos para parar. Provavelmente Adam nem tinha percebido minha falta ainda.
Ao sairmos pelo portão, ouvi um rugido estrondoso e ferido que doeu no meu coração. Fez Nara — que já estava fraca por proteger os filhotes — dar um sobressalto de dor.
Atenor acelerou e deixamos a matilha do Norte para trás.
— E então, qual é o plano B? — perguntei.
— Procurar o Gustavo.
— O pai do Gael. Por quê?
— Espero que ele tenha respostas para te manter viva.
Gustavo
No meu escritório, sigo com as tarefas de praxe: assino documentos e participo de reuniões administrativas. Mesmo que minha alma esteja sangrando, isso e ser um alfa. Você não pode parar para lamber suas feridas sossegado.
Embora meu filho e eu tivéssemos divergências, nunca imaginei ter de recolher seu corpo. Um pai não costuma se preocupar com a morte do filho; ele sempre acha que a morte chegará primeiro para ele.
O telefone toca.
— Senhor, alguém chamado Atenor quer falar com o senhor. Posso passar a ligação?
Um lobo, de verdade? Ótimo... mais problemas.
— Pode passar.
— Gustavo, estou passando por perto do seu escritório e preciso falar com o senhor. Que tal um almoço?
— Ouvi que as fêmeas que carregam os filhotes de vocês morrem.
O garçom trouxe o prato: um bife gigante e os acompanhamentos.
— Vocês não vão pedir nada? — A fêmea atacou o bife como se ele fosse escapar.
O garçom humano ficou perplexo, pigarreou e saiu de fininho.
— Nossa energia é diferente. A maioria dos lobos tem energia quente; nós somos as garras de gelo. A mãe precisa de muita energia quente. Na verdade, as fêmeas das nossas matilhas são todas “nossas”: elas conseguem gerar filhotes com machos de fora.
— Então por que o merda do seu filho não procurou uma fêmea entre vocês? — ela perguntou, desistindo dos talheres, agarrando a carne com as mãos e abocanhando — um belo espetáculo para os curiosos ao redor.
A raiva ameaçou subir, mas, pensando bem, era ela quem estava arriscando a vida pelo meu neto.
Ajeitei a postura, olhei para o teto, pedi paciência à deusa e tomei o último gole da bebida.
— Ele procurou na nossa e em todas as matilhas vizinhas. Viajou muito em busca de uma companheira ou de uma Luna de nascimento — como você, uma destinada.
— Então e verdade.
— O quê?
— Eu vou morrer...

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Laçando o supremo que me traiu.
A história é fascinante, parabéns ao autor(a). Ela nos vicia a querer saber mais....
Olá, gostaria de saber se já lançou mais algum capítulo além desses que estão aqui. E quando irão lançar?...