Eliz
Quando a médica chegou, ligou um acesso venoso no braço de Adam e outro na garganta de Ajax, onde uma garra havia feito um corte profundo — a carne ao redor, lacerada, exibia um vermelho intenso e se negava a cicatrizar.
Depois de cerca de vinte minutos, Ajax já parecia menos pálido; a respiração desacelerava e estava menos forçada. A médica não parava de injetar medicamentos e de suturar as feridas, acompanhando atentamente as informações nos monitores presos ao peito dele.
Quando a médica anunciou que ele estava estável, todos nós respiramos aliviados.
Adam cedeu parte de seu sangue como reserva, caso alguém — ele ou outro — precisasse futuramente. Ficou acertado que eu e ele faríamos doações regulares ao banco de sangue lupino. Melhor prevenir do que remediar.
Às duas da manhã estávamos de volta à mansão do Norte, por ser a mais próxima. Liguei para minha mãe e a deixei responsável pelos netos.
Subimos as escadas em um silêncio confortável. Entendo por que ele está fechado: o conflito dele, assim como o meu, é entre o que gostaria e o que precisa fazer.
Tomamos banho e eu adormeci, mas acordei sentindo falta do calor dele. Procurei sua presença e o encontrei no terceiro andar, num grande salão repleto de instrumentos — cordas, piano, tambores — que fariam qualquer músico babar.
Uma brisa noturna trouxe seu cheiro amadeirado. Ele estava de costas, apenas com uma calça de moletom cinza, as mãos apoiadas firmes no parapeito, flexionando suas costas largas e delineando seus músculos, observando o seu imenso território. Quando me aproximei, virou a cabeça lentamente; os olhos escuros estavam amarelo-flamejantes — o mesmo olhar que eu conhecia: o olhar de quem me submetera ou de quem estava prestes a castigar alguém.


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Os comentários dos leitores sobre o romance: Laçando o supremo que me traiu.