Liliane
Aquiles me deixou na porta da escola, e eu pude respirar. Mesmo vestido com uma calça jeans e uma camisa verde militar, consigo imaginar todos os músculos sob a roupa, a mente faz o trabalho sujo por mim. Sigo para a sala das professoras para pegar meu material; aproveito e pego alguns biscoitos e café numa mesinha que, entre nós, chama-se imprescindível para a sobrevivência.
Moramos perto umas das outras e sempre tem alguém chegando com a barriga roncando, para as ômegas, ver alguém passar fome é quase um crime.
— Vocês viram? Chegou mais um. Dizem que é o noivo da Artemísia.
A fofoca circula livre na sala; é praticamente um esporte por aqui.
— Será que todos os machos da matilha real são assim? — suspirou uma das meninas. — Parecem deuses! A deusa me livre... Mas quem me dera, só umazinha.
Todas riram. Somos cinco professoras no período da manhã; Artemísia foi quem nos trouxe pessoalmente e nos ofereceu o trabalho. A metodologia oriental a encantou
— Por que só uma? Tem medo de se apaixonar? — entrei na conversa, curiosa.
— Imagine se apaixonar por um macho que pode te congelar se ficar com raiva... — falou a primeira.
— Dizem que são amaldiçoados. Muitas fêmeas deles encontram a deusa na hora do parto — emendou outra.
Quase me engasguei com o pedaço de biscoito que havia engolido às pressas.
— E os membros da matilha dele não o querem por isso; não sabem se ele conseguirá ter descendentes, então já arranjaram a união da Luna, Artemísia, com o beta de lá.
— Hum. Entendi.
Os ômegas parecem inofensivos aos olhos dos alfas, mas sabem tudo, e até mais um pouco, sobre a vida deles. Além disso, nossa quantidade é bem maior.
— Fica fora do alcance dele, Liliane. Se algum dia descobrirem as ômegas de ouro, nenhuma delas terá mais sossego.
Houve um tempo antigo em que ômegas eram apenas trabalhadores escravos; sofriam demais para sobreviver aos alfas cruéis. A constância dos castigos e espancamentos adaptou seus corpos: fracos e delicados por fora, resistentes por dentro, com uma cura acelerada. Alguns eram tão resistentes que só morriam se o coração fosse retirado do corpo — a esses chamavam "ômega de ouro".
Todas pararam, o café esquecido nas mãos.
— Por que estão me olhando assim? — perguntei, contrariada. — Eu sou apenas uma ômega comum. Um alfa desses não me olharia dessa maneira; eles se unem a mulheres poderosas como eles.
Elas riram.
— E não foi por isso que você veio parar nessa matilha? Tão longe da sua casa?
Revirei os olhos e engoli o último gole de café.
— Vocês estão vendo chifres em cabeça de cavalo.
Caminhei até minha sala de aula. Elas tinham razão na lógica, mas aquele lobo me pareceu tão solitário; não deve ser fácil chegar a um lugar e todos fugirem ou emitirem ondas de medo. Ele precisa de uma amiga.
Quase fugi da escola para arrumar minha casa e temperar algumas carnes para uma bandeja de petiscos. "Ei — o que será que ele gosta de beber?" — pensei. Na dúvida, comprei cerveja, refrigerante e até um vinho. Não, vinho é só para encontros românticos. Talvez eu comprasse só para garantir: melhor sobrar do que faltar, não é?

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Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Laçando o supremo que me traiu.
A história é fascinante, parabéns ao autor(a). Ela nos vicia a querer saber mais....
Olá, gostaria de saber se já lançou mais algum capítulo além desses que estão aqui. E quando irão lançar?...