Artemísia
Me encaro no espelho e ajeito a manga do blazer azul-marinho, justo nos pontos certos. O corte impecável do tecido me dá uma aparência sofisticada; quero parecer profissional, transmitir poder e elegância.
Coloco um colar fino de prata e um par de brincos pequenos, incrustados com um diamante discreto. A joia em si não tem grande valor financeiro, mas a mensagem que passa é clara: a maioria dos lobos nem conseguiria tocar. Confesso que incomoda um pouco — minha loba fica o tempo todo tentando recuperar a pele — mas o efeito vale.
Minha loba parece satisfeita; lambe os dentes como se se preparasse para a guerra. Completo o visual com um coque baixo. Não gosto de maquiagem, mas, como nas tradições indígenas, as fêmeas sempre se pintam quando vão à guerra, não é mesmo?
— Huum.
Felipe passa por mim, admirando-me. O braço dele envolve minha cintura e seguimos juntos pelo corredor.
— As fêmeas de Garras de Gelo vão ficar ofuscadas pela sua beleza hoje.
— Hoje minha reunião não será com as fêmeas, Felipe.
Ele se afasta e meu corpo sente a perda; tento disfarçar.
— Hoje conversarei com os machos — continuo, caminhando pelo corredor.
Ele para por um segundo, depois me segue. Já não é apenas Felipe, meu companheiro e beta ali.
— Não aconselho que faça isso. Você chegou há pouco; eles precisam conhecê-la primeiro.
Viro-me, incrédula.
— Eles precisam me conhecer? Eu não conheço você direito e, mesmo assim, você anda se enfiando na minha cama noites seguidas.
— O que quer dizer com isso, Artemísia? Vai jogar nossa intimidade na minha cara agora?
Viro-me e sigo até a mesa do café. Antes que eu me sente, ele puxa minha mão e me obriga a encará-lo.
— Estou dizendo que sei das minhas responsabilidades.
Não queria terminar aquela resposta na frente do avô. Felipe solta meu braço. O olhar dele escurece; esse não é um lobo acostumado a receber ordens.
— Você não passa de uma filhote mimada pela sua família. Esta é a maior matilha do reino dos lobisomens e viveu bem sem você até hoje.
Meu avô está sentado à cabeceira da mesa; eu me sento do lado oposto, para não ficar perto de Felipe.
— Se você esperou me trancar no alto da torre e me usar apenas como enfeite da sua cama, sinto muito — digo. — Não vai acontecer.
— Acha mesmo que vão ouvi-la? Aqui governa a lei do mais forte.
— Vocês podem parar com isso? — meu avô tenta acalmar os ânimos. Tanto eu quanto Felipe rosnamos diante da sua intervenção.
Ele levanta os braços num gesto de rendição.
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Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Laçando o supremo que me traiu.
A história é fascinante, parabéns ao autor(a). Ela nos vicia a querer saber mais....
Olá, gostaria de saber se já lançou mais algum capítulo além desses que estão aqui. E quando irão lançar?...