Artemísia
No caminho para a casa de Vanessa, Felipe parece querer dizer alguma coisa. Agora sou eu que sinto falta de poder vasculhar sua cabeça; ele olha para a paisagem na janela como se fosse um quadro caro. Na rua escura só há árvores e dois bêbados cambaleantes.
— Fala, Felipe. Já cansei das garras do seu lobo arranharem minhas barreiras mentais.
Resolvo lhe dar atenção. Meu corpo ainda sentia como se ele estivesse dentro de mim. Acho que isso me torna mais maleável.
— Esse é o problema: por que você mantém uma barreira entre nós? Sofreu algum tipo de abuso em alguma fase da sua vida?
Me remexo e o encaro séria. Esse não é um assunto leviano. Imagino o que passa na cabeça dele. Todos duvidavam que Adam realmente tivesse sido carinhoso e cuidadoso como um pai.
— Adam sempre me tratou como pai. Eu o amo e não aceito esse tipo de insinuações, Felipe. — Fico decepcionada; dói vê-lo ser preconceituoso como os outros.
— Não é isso. Acontece que, a essa altura, seu corpo já deveria ter se acostumado ao meu. Acho que deveria procurar uma curandeira ou uma médica humana, se não quiser que ninguém do nosso mundo saiba disso.
— Eu não tenho problema algum. Você está sendo muito minucioso.
Começo a perder a paciência.
— Não vou tomá-la novamente até que você me apresente um relatório médico.
Ele fala firme.
Minha loba choramingou. Embora houvesse dor, ele sempre nos trazia prazer.
— É uma promessa?
Falo como se não me afetasse em nada.
— Chegará a hora em que você implorará para que eu esteja dentro de você, Artemísia.
Reviro os olhos.
— Vai esperando. — Faço um estalo aborrecido com a língua.
Chegamos e cumprimentamos meu irmão, que nos deu a notícia da noite: passaríamos a noite nos divertindo e relaxando. Deixei a mala no quarto e desci, só para dar de cara com Liliane e Aquiles.
— Vamos, Liliane? — O olhar desconfiado dela já sabia o que eu ia cobrar assim que estivéssemos só dentro do carro.
— Luna Artemísia. — Ela baixa a vista como menina pega em flagrante.
— Você tem noção do problema que me enfiou, Liliane? — Não adianta essa cara; não vai resolver nada. Precisamos de uma solução.
— Eu sei, mas não consegui resolver sozinha antes... como conseguiria agora? Se não tivesse me tirado de lá eu já estaria acasalada.
Suspirei, resignada. Tinha simpatizado com a causa da Liliane porque ela se parecia muito comigo. Eu havia falado ao pai dela que, a levaria para casa antes de completar os dezoito anos, intacta para sua primeira transformação.
— Aquiles sabe?
— Não posso contar, por favor não me obrigue... — Lágrimas brotavam em seus olhos. Odeio ver essa menina chorar; amo seu sorriso fácil e o modo alegre como encara a vida.
— Ele jamais faria mal a você, Liliane. — Ela fungou.
— Eu sei. Não é por mim que tenho medo. Tudo aconteceu muito rápido; não tive intenção de me apoiar na sua família e ser ingrata. Me desculpe.
— Não estou preocupada com essa parte. Se eu a achasse sem-vergonha, nunca teria trazido você para perto da minha família. Sou uma Luna; preciso cumprir a palavra dada a seu pai. — Ela balançou a cabeça em concordância. — Nossa viagem está marcada para a próxima quinzena; a professora substituta já foi contratada, tudo está arranjado. Lá veremos o que fazer. Vou tentar negociar com ele de novo; não é possível que, em nome de sangue puro, ele não a deixe virar uma Luna.
— Obrigada! — Liliane me abraça apertado e retribuo.

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Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Laçando o supremo que me traiu.
A história é fascinante, parabéns ao autor(a). Ela nos vicia a querer saber mais....
Olá, gostaria de saber se já lançou mais algum capítulo além desses que estão aqui. E quando irão lançar?...