Aquiles
Saio de casa e me transformo em lobo, embrenhando-me na floresta. Meu objetivo é limpar a tristeza que sinto. Como pude, depois de tudo, me iludir com uma menina que dá aulas?
— Ela é nossa companheira. Isso logo ficará claro. — Meu lobo fala em um tom seco.
Sinto minha garganta apertar.
— Isso é inútil. Ela não nos quer dessa forma.
Ele não responde. Apenas força minha mente até quase romper minha cabeça, obrigando-me a parar de correr.
— Ela aceita nosso contato físico. Será compatível com meus filhotes. — Ele sente que essa é uma oportunidade única.
— Sim. Mas já conversamos sobre isso, lobo. Não matarei ninguém para procriar. No máximo, terei uma fêmea para te confortar.
Ele uiva, tão forte e entristecido, que sua dor me esmaga. Sua resposta mental é cruel.
— Então que essa fêmea seja ela. Volte e tome o que é nosso. Não é demais exigir isso, porque ela é nossa!
Minha mente entra em choque com a dele. Todo o meu corpo dói. Imediatamente percebo o que está acontecendo.
Meu coração dispara. Sinto apenas o desespero dele. Mas não posso deixá-lo voltar atrás de Liliane assim.
— É muito pedir... que tenhamos uma companheira que não nos tema neste mundo? — sussurro, já sem forças, sentindo-me derrotado.
— O que dizes? — ele pergunta, firme.
Pelo tom, é evidente: se não fôssemos um só, eu já estaria morto.
Ele se cala por um momento. Posso sentir sua descrença enquanto processa minhas palavras.
— Não renunciarei à minha companheira. Mas esperarei até que sua loba nasça.
Ele recua, voltando ao fundo da minha mente, vestindo sua máscara sarcástica.
Meus sentidos falham. Isso acontece por causa da divergência entre nós. A sensação desesperadora de estar partido em dois.
A caminhada de volta é dolorosa e silenciosa.
**Luna Vanessa**
Observo o macho à minha frente com total interesse. Quem visse aquele lobo másculo lá fora jamais imaginaria o quão cínico ele poderia ser por uma única coisa.
— Vamos, companheira. Prometo que serei gentil.
Seu tom suplicante não me abala. É óbvio que não acredito em nenhuma de suas palavras.
— Gentil? Você?
— Sim. E posso lhe dar algo em troca. — Seus olhos brilham. Sei que seu lobo também está presente. Estou aprendendo a reconhecer os sinais.
— Você não vai comprar meu traseiro, Adrian. Desista. Esse negócio enorme não entra aqui de jeito nenhum. Comporte-se.
Empino o quadril e dou um tapa para ilustrar.
Eu deveria ficar zangada pela tentativa de suborno. Mas a expressão de pedinte dele derrete algo dentro de mim.
Me jogo sobre ele.
— Muito bem. Que fique claro que perdi esta batalha, mas vencerei a guerra.
Ele sorri, descarado.
— Continue sonhando.
Ele me beija, e vejo meu celular tocar sobre a mesa de cabeceira. No visor, o nome do meu pai.
— Oi, pai. Só um minuto, vou colocar no viva-voz.
Adrian continua me apalpando, e o empurro com a mão livre.
— Oi, meninos! Adrian, você cuidou bem da minha princesinha? — meu pai brinca.
— Creio que ela não tenha do que reclamar. — ele responde, me observando com intensidade.
— Não tenho mesmo, pai. Adrian providenciou uma bela serenata em um lugar maravilhoso, com muitos mimos.
O ar de satisfação dele é imediato.
— Esplêndido, querida. — Seu tom muda, ficando mais sério. — Marcaram a data do julgamento da sua tia. Vou precisar que esteja aqui para dar seu depoimento.
Suspiro.
— Ela precisa mesmo ver aquela cobra de novo? — Adrian pergunta, firme.
— Se queremos que ela passe muito tempo na cadeia, sim.
— Tudo bem. Envie a data e o horário. Vou me programar para levá-la.
Adrian assume a situação como se fosse sua responsabilidade me proteger, e sinto uma gratidão silenciosa crescer dentro de mim.
***Artemísia***
Eu havia trazido um colar de pérolas delicado para presentear minha sogra. Após o jantar, na sala, entreguei o presente.
Ela agradeceu, mas me olhava como se houvesse algo mais a dizer.
Mais tarde, ao nos acompanhar até a porta, segurou minha mão com carinho.
— Espero que possa voltar qualquer dia desses... e que não faça meu menino sofrer mais.
— Mãe!
Ela apenas inclinou a cabeça, sorrindo suavemente.
— O quê? Ela sabe que, se se desconectar de você ao final deste contrato, você perecerá? Sabe dos ataques do seu lobo antes dela chegar?
Olhei intrigada para Felipe. O lobo orgulhoso ao meu lado parecia constrangido.
— Mãe…
Ela o ignorou.
— Vai deixar meu filho morrer, Luna? Ele treinou a vida inteira para ser seu companheiro e Alfa desta alcateia.
Engulo em seco.


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Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Laçando o supremo que me traiu.
A história é fascinante, parabéns ao autor(a). Ela nos vicia a querer saber mais....
Olá, gostaria de saber se já lançou mais algum capítulo além desses que estão aqui. E quando irão lançar?...