Artemísia
Liliane estava virada para a parede, chorando baixinho entre soluços. Chamo por ela, mas não recebo nenhuma resposta.
Aproximo-me e a puxo suavemente para um abraço. O cheiro de Aquiles ainda está em seu corpo, recente demais, íntimo demais.
— Desculpa, Luna… acho que não posso cumprir nosso combinado.
Fecho os olhos por um breve instante.
— Não precisa me dizer mais nada sobre isso.
Não é a primeira vez que sinto o peso de ter uma alcateia inteira dependendo de mim. Ainda assim, sempre que preciso tomar uma decisão que fere alguém que amo, meu coração aperta e a culpa encontra seu caminho até mim.
Ver Liliane e meu irmão presos nesse desencontro angustiante parte algo dentro de mim.
Mas existem muitos lobos dependendo do meu acordo com o pai dela. Por isso, preciso agir com cautela.
Ela se afasta e me olha com tristeza.
— Você é uma loba inteligente. Só precisamos de mais alguns dias para que tudo caminhe como deve. Vai colocar todo o meu plano a perder, Liliane?
Ela respira fundo.
— Não. Minha família também é importante para mim.
Segundos depois, ela para de chorar. Aperta os lábios, tentando recuperar o controle.
O silêncio que se instala entre nós não é desconfortável — é pesado.
Ela se deita de frente para mim. Eu a cubro com o lençol e seguro sua mão enquanto lágrimas silenciosas escorrem de seus olhos.
— Agora eu sei como você se sente… — ela sussurra. — Às vezes parece que estamos presas entre nossos desejos e as obrigações que nos cercam.
Minha garganta aperta.
— Você nem imagina o quanto, minha amiga… nem imagina.
Permito que minhas lágrimas se juntem às dela.
Eventualmente, o cansaço vence a dor.
E adormecemos.
Pela manhã, saio na ponta dos pés para não acordá-la. Peço a uma serva que leve um bom café da manhã para ela e Lucila no quarto.
Quando entro no meu escritório, encontro as caixas com minhas encomendas abertas sobre a mesa.
Meu avô, Gustavo, está sentado atrás dela, pensativo.
Meu estômago se contrai.
— Por que abriu minhas encomendas?
Ele levanta o olhar, surpreso.
— O que é isto?
— São coisas para minha lua de mel. Agora é pecado me preparar?
— Não isso.
Ele gira a tela do computador na minha direção.
Os gráficos da alcateia oriental dos ômegas.
Finjo indiferença.
— Ah! isso. Apenas uma pesquisa. Faço muitas todos os dias.
Seu rosto endurece.
— Por que está pesquisando esses ômegas?
Cruzo os braços, mantendo a postura firme.
— Talvez precisemos de ajuda extra. As ômegas deles são as melhores.
Ele me encara com desconfiança crescente.
— E precisou estudar tudo isso para contratar alguns ômegas? Ou nossos lobos os desejam porque são fêmeas bonitas? Liliane mesmo é de lá.
Sua expressão escurece.
— Vai sacrificar todas elas? Ficou louca, Artemísia?
Seu punho b**e na mesa com força.
Não recuo.
— Não pretendo sacrificar ninguém. Mas estamos em fase de adaptação. Algumas perdas podem acontecer. Será a vontade da deusa, que forma os vínculos.
Ele respira fundo, a dor evidente em seus olhos.
— Minha companheira era uma loba real. Passou quatro dias em trabalho de parto para ter Gael… e não sobreviveu. Minha mãe também era uma loba real, Artemísia. Nem cheguei a conhecê-la.
Sua voz falha, mas ele continua:
— O que você quer fazer é mais monstruoso do que qualquer coisa que já aconteceu aqui.
Sustento seu olhar.


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Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Laçando o supremo que me traiu.
A história é fascinante, parabéns ao autor(a). Ela nos vicia a querer saber mais....
Olá, gostaria de saber se já lançou mais algum capítulo além desses que estão aqui. E quando irão lançar?...