Eliz
Acordei e fiz minha higiene mental. Ainda pensava em como minha vida mudara, do Norte para o Sul, tão drasticamente em três dias. Abri o laptop e confirmei para a tarde meu primeiro encontro com as fêmeas que estão plantando e colhendo as ervas nas estufas que planejei. Meu pai não tinha levado a sério o quanto aquilo valia, mas eu enviei o link com a cotação das ervas — sua opinião sobre fêmeas não poderem liderar mudou num flash.
Quando encerrei a conversa, fiquei um pouco entediada; acho que foi por isso que comecei a perceber realmente onde estava. Adam me trouxera, no primeiro dia, ao quarto dele, deixou minhas roupas ao lado das suas e era simplesmente isso: como se eu fosse alguma mobília para ficar o dia todo ali.
Dei uma olhada na biblioteca procurando algum livro interessante. A biblioteca dele é imensamente diversa, mas parei num livro pequeno — eu me lembrava dele; o dei a ele no aniversário de vinte anos. Os pais de Adam fizeram uma reunião informal com amigos, piscina e uma banda ao vivo. Até então Adam era como um irmão mais velho para mim: me defendia e ajudava em tudo o que eu pedia. Mas, naquele dia, várias lobas davam em cima dele, e os amigos mandavam que elas tivessem cuidado porque “a noiva” estava por perto. Adam tentou me defender, mas uma das lobas perguntou se ele era pedófilo ou algo assim. Depois daquele dia as coisas ficaram estranhas e distantes.
Peguei o livro com raiva; a capa tinha marcas, como se tivesse sido muito manuseado. Ao abri-lo, uma foto minha caiu. Nela, uma Eliz rechonchuda, de uns quatro anos, sorria apoiada nos ombros de Adam. Algo me aqueceu, mas eu enterrei aquilo. Guardei a foto com força dentro do livro e decidi seguir mais cedo para a casa dos meus pais, na matilha do Sul.
Como sempre, minha mãe me cobriu de carinhos; desejamos aproveitar uma a outra por todo nosso tempo perdido.
— Então você e o Adam se acertaram? — ela perguntou. Eu não poderia contar que ele me forçava todas as noites; por enquanto, não tinha como ela me ajudar.
— É, mãezinha... — respondi.
— Mas seus olhos não brilham, filha — ela segurou minha mão —. Você pode se abrir comigo.
Dei um pequeno sorriso resignado.


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Os comentários dos leitores sobre o romance: Laçando o supremo que me traiu.