Eliz
Um arrepio subiu pela minha nuca. Quando virei, ele já estava ali — uma sombra enorme encostada no canto, observando-me: Adam, silencioso, contido, suprimindo o cheiro que costumava me desarmar.
— O que quer? — perguntei, sem desviar os olhos do amplo jardim real. O vento noturno passava pelo rosto e por um segundo me senti livre — nem que fosse por um suspiro.
— Você. — A resposta veio pelo elo; sua voz dentro da minha cabeça me atravessou. Pela primeira vez senti o estremecer de algo mais que o corpo: era íntimo demais para não exigir sentimento.
— Já tem, não é? — devolvi pelo elo. Vi-o abrir os olhos com satisfação. Atrás dele, o rosto sério, a mandíbula firme — por incrível que pareça, isso o tornava ainda mais bonito.
— Você voltará comigo para o Norte. Pese bem sua resposta. Envolve mais do que nós dois.
Fiquei olhando a noite. Não houve pedido de desculpas. Nenhum “gosto de você”. Nenhuma conversa comum. Nada. Eu era mais uma obrigação na lista dele.
— Como quiser. — Preferi poupar-me ao confronto; ir contra Adam seria inútil. Ele me traria de volta de qualquer jeito.
Depois da cerimônia despedi-me dos meus pais e de Mika. Não precisei usar a informação que ela me dera: todos me trataram com uma cortesia que me surpreendeu. Foi bom saber que posso contar com ela. A satisfação abafou, por ora, os olhares faiscantes de Kaia.
No caminho, silêncio. Permaneci quieta — não por medo nem raiva; minha atenção estava naquele fio dourado que nos prendia. Após o vínculo algo havia mudado: um peso invisível assentara-se entre minhas omoplatas, e ao mesmo tempo a mente parecia limpa, cortante. A verdade clareou como dia: eu pertencia a ele. Mas será que, algum dia, ele poderia pertencer a mim?


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