Eliz
Pude observar as emoções passando pela máscara que, até então, era fria.
Incrédulidade.
Incerteza.
Decepção.
Raiva.
— Você tem certeza disso, Eliz?
Ele se levantou; os punhos cerrados, os nós dos dedos brancos.
— Tenho, sim. Para ela fazer isso, teve algum motivo — falei com a firmeza de quem conviveu com muitas lobas intimidadas. — Só um cego não perceberia que ela ainda te ama.
Arqueei uma sobrancelha.
— Ela é uma fada de fogo; poucas coisas a atingiriam. — Os olhos dele se encheram de pura raiva. Segurei seu pulso quando tentou sair do quarto. Antes que a impulsividade o levasse a tomar uma decisão prejudicial.
— E se o alvo fosse você? Se ela te amasse ao ponto de querer te proteger... você mesmo disse que, na época, não era tão forte. Não era o Senhor do Fogo, não era um ancião do Conselho Sobrenatural.
Minha pergunta fez algum efeito: ele parou, a respiração entrecortada.
— E se ela estiver protegendo o seu filhote? — coloquei as duas mãos sobre a barriga, em demonstração. — Como eu vim parar aqui, num lugar tão distante, para proteger os meus?
Calendi, por fim, acalmou-se e retomou o controle. Colocou a mão no meu queixo e ergueu meu rosto até o dele.
— Eu sei que você poderia ter ficado calada e eu nunca saberia. Sei o quanto significou sua decisão.
Seus olhos tempestuosos, mas firmes nos meus. E um macho digno, sua companheira tem muita sorte.
— Nada mais justo, pelo modo como me tratou, Senhor do Fogo.
Tentei demonstrar segurança e força com um sorriso de lado — que eu, na verdade, não sentia nem um pouco.
Só espero que ele não me jogue na rua assim que fizer as pazes com sua fada.
Levantei-me.
— Para onde vai?
O tom dele soou preocupado, mas eu sei bem meu lugar. Nunca precisei implorar por atenção; não começarei agora.
— Por enquanto, ficarei no quarto de visitas, se estiver tudo bem para você, Calendi. — Ainda tinha que me preocupar com meus filhotes; por eles eu teria que descer um pouquinho do meu salto. — Você pode me dar um aperto de mão ou um abraço antes de dormir? Isso bastará para os meus filhotes.
Todos me olharam horrorizados.
— Você não pode voltar para aquele companheiro achavascado, Eliz — Calendi falou primeiro.
— Eliz, se for por minha causa, quero que saiba que não te acho uma tola; sei que o motivo de estar aqui é nobre. Não é necessário sacrificar-se por seus filhotes.— A companheira de Calendi, tentou argumenter também.
Eu ri. De fato, sentiria falta deles, mas não tanto quanto sentia da minha família e do meu reino. Queria minha mãe por perto, ajudando-me a cuidar dos filhotes quando chegasse a hora.
Dei um sorriso educado.
— Eu agradeço, mas sinto falta da minha casa; e sei.. que vocês precisam recuperar o tempo perdido a sós.— Falei piscando um olho pra ela.
A fada corou, mas não negou o óbvio.
Atenor, companheiro de Ania — que a acompanhava mais em forma de lobo — levantou-se e foi até o banheiro; voltou com uma toalha enrolada ao redor do corpo. Um lobo com pudor — que novidade.
— Já que resolveu voltar, vamos traçar um plano eficiente.
A voz dele, rouca e preguiçosa, escondia um lobo astuto, irmão do Gama Real e vencedor de muitas batalhas.
Os olhos de Ania brilhavam de admiração pelo companheiro. Até eu o olhava, admirada.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Laçando o supremo que me traiu.
A história é fascinante, parabéns ao autor(a). Ela nos vicia a querer saber mais....
Olá, gostaria de saber se já lançou mais algum capítulo além desses que estão aqui. E quando irão lançar?...