Caroline Hart
Pedir ajuda a Damon Thorn era uma das últimas coisas que eu queria fazer.
Meus recursos estavam acabando. A pressão estava me esmagando por dentro. Eu sabia que ele podia me ajudar — o problema era o preço de dever algo ao meu chefe misterioso.
"O chefe gosta de alimentos frescos, Hart. Se faltar, você deve ir comprar." Daiana sussurrou enquanto eu lavava algumas frutas.
Revirei os olhos. Ainda não entendia a dinâmica dessa casa. Damon parecia o centro de tudo. Não era só respeito… era algo maior. Instintivo. Quase... devocional.
Mas eu tentava me dar bem com Daiana.
"Você está se saindo bem, humana."
Arqueei a sobrancelha. Por que todos aqui falavam como se eu fosse de outro planeta? Como se eles soubessem de algo que eu não sabia?
A cidade inteira era estranha.
Às vezes eu ouvia ruídos na floresta. Outras, sombras nas janelas. Como se algo sempre me observasse.
Mas eu ignorava.
A água ainda escorria da torneira, mas minhas mãos já não estavam mais ali. Meu corpo lavava frutas, enquanto minha mente vagava até Damon Thorn.
"Você trabalha aqui há muito tempo?" perguntei, tentando soar casual.
"Desde que ele era adolescente. Antes de perder os pais." Daiana não me olhou.
"Ele parece confiar em você."
"Confiança é rara nesta casa." murmurou. "Mas... ele já foi diferente. Mais... vivo. Depois dela, tudo mudou."
"Dela quem?"
Silêncio. Um olhar duro. E nada mais.
Respirei fundo. Eu queria saber mais, mas não era o momento.
"Temos pouco alecrim. Vai precisar colher mais." disse ela, mudando de assunto.
Assenti e saí pelos fundos da casa.
A horta era pequena. Mas o ar fresco ajudava a clarear a mente.
O fim da tarde pintava o céu com dourado quando me agachei entre as plantas.
Foi aí que o chão cedeu.
"AH!" gritei, caindo num buraco coberto por folhas secas. Meu corpo bateu com força. A dor explodiu no ombro e no tornozelo.
"O que— Merda."
O barulho de galhos quebrando. Um rosnado abafado. E então:
"HART!"
A voz dele. Grave. Urgente.
Damon apareceu acima da abertura. Os olhos selvagens, vibrando em azul. Algo neles era... animalesco.
Ele pulou sem hesitar, caindo com precisão ao meu lado.
"Você se machucou?" Sua voz saiu mais áspera que o normal.
"Acho que torci o tornozelo." murmurei, trêmula. "Como posso ser tão desastrada..."
Sem pedir permissão, ele me pegou nos braços. A força e o cuidado com que me segurou me deixaram sem reação.
"Segura firme."
E eu segurei.
O corpo dele queimava. Literalmente quente demais. Como se carregasse uma febre que não era doença. Era... algo vivo.
Em segundos, já estávamos do lado de fora. Ele me deitou devagar na grama, o rosto colado ao meu.
"Você precisa tomar mais cuidado." Ele rosnou, mas não era comigo. Era com o mundo. Com qualquer coisa que tivesse me ferido.
"Obrigada..." sussurrei. "Você chegou tão rápido..."
"Eu ouvi." ele disse, os olhos fixos nos meus. "Senti."
A intensidade com que ele me olhava me prendeu ali. O tempo parou.
A dor sumiu. O ar ficou denso entre nós.
"Damon…" minha voz falhou.
Meu corpo ainda vibrava.
Ele quase me beijou.
Não — ele queria me beijar.
E, por algum motivo, isso parecia mais perigoso do que se ele tivesse me deixado cair naquele buraco.
Havia algo em Damon Thorn que fazia minha pele arrepiar — e não era medo.
Era… alerta.
Como se meu corpo soubesse de algo que minha mente ainda estava tentando alcançar.
Ele me carregou como se eu não pesasse nada. Seus braços eram uma prisão quente, firme. E por um segundo… eu quis ficar ali.
O problema é: Damon me olha como se me quisesse. Mas age como se me odiasse por isso.
Voltei mancando para dentro da casa. Daiana me lançou um olhar de cima a baixo, mas não comentou nada. Como se já soubesse. Como se todos soubessem.
Tomei um banho rápido, vesti uma roupa confortável e fui até a varanda com um cobertor nos ombros. Precisava de ar. Mas também precisava de distância.
A floresta estava viva de novo. Criaturas invisíveis se moviam entre as árvores. Folhas dançavam com o vento. E havia aquela sensação... de ser observada.
Desde que cheguei aqui, algo me dizia que essa terra respirava.
Como se tivesse um dono.
Um guardião.
Algo antigo e indomável.
Meus olhos foram atraídos pela janela do andar de cima.
Luz acesa.
Sombra no vidro.
Ele estava lá. Sentado. De costas. Imóvel.
Como se sentisse que eu estava olhando.
Como se estivesse lutando com ele mesmo.

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