Damon Thorn
O vento ainda carregava o cheiro dela. Doce, forte, marcante.
No meu quarto, observei o lençol amassado, travesseiro quente, o perfume doce da pele humana misturado ao meu.
E mesmo com a janela aberta, mesmo com o frio da floresta cortando o quarto, nada limpava sua presença.
Caroline.
O nome dela era um problema. Um erro. Um risco.
E ainda assim… era a única coisa que minha mente repetia como um mantra.
Eu a queria. Mais do que querer, eu queria reivindicá-la como minha.
Ela era uma humana, eu um lobisomem. Quais as probabilidades disso dar certo?
Passei as mãos pelos cabelos, ainda tentando recuperar o controle. A noite passada tinha sido intensa demais. Instintiva demais. Verdadeira demais. Eu tinha deixado o lobo chegar perto dela. E pior — tinha gostado da sensação.
Ela não fazia ideia do que significava se deitar com alguém como eu.
Do que o lobo dentro de mim podia querer a partir de agora, de quanto eu me controlei para não a machucar e deixar ele assumir.
Reivindicar. Proteger. Lutar. Matar.
Era assim que funcionava.
E por isso eu precisava me afastar.
Então veio o bilhete.
Victor o encontrou dobrado na porta da cozinha naquela manhã.
Três palavras apenas: "Volte para onde pertence."
Sem cheiro. Sem marca.
Mas eu conhecia o padrão.
E conhecia quem usava esse tipo de ameaça.
Selvagens.
Exilados da alcateia, lobos que haviam recusado as leis.
Violentos. Instáveis. Sem Alfa.
Sem honra.
Alguns deles tinham sido expulsos por mim mesmo, anos atrás, quando tentei impedir que a matilha mergulhasse na selvageria.
Eles não esqueciam. E não perdoavam.
Agora estavam perto.
E sabiam sobre ela.
"Filhos da puta," murmurei, já descendo as escadas com passos duros." E você deixou a porra do bilhete lá? Ela não pode ver."
"Meu Alfa, ela já havia visto. O bilhete tinha o cheiro dela, ela tocou, e abriu."
Victor se encostou no batente perto da varanda, onde as trilhas se abriam para a floresta.
"Encontramos pegadas," ele disse sem rodeios. "Quase apagadas. Mas são deles."
"Quantos?"
"Pelo menos três. Talvez quatro. Estão evitando as câmeras. Mas chegaram perto. Perto demais."
Meu maxilar travou. Me aproximei, sentindo o cheiro do vento.
Caroline.
Eles a sentiram.
“Não.” Ele manteve os olhos nos meus. “Acho que ela te torna... exposto. E eles farejam qualquer abertura.”
Fiquei em silêncio. Por um momento, o vento pareceu prender a respiração junto comigo.
“Ela não tem culpa de estar aqui,” falei por fim."Eu nunca devia ter mantido o emprego dela."
“Talvez não. Mas está. E agora faz parte disso.”
Essas palavras ficaram gravando no ar entre nós como marcas de garras na madeira. Parte de mim queria retrucar. A outra parte, sabia que ele estava certo.
“Eu vou até a fronteira,” decidi. “Quero sentir por mim mesmo.”
Victor franziu o cenho. “Vai sozinho?”
“Sim. Se os selvagens querem brincar, eu vou deixar uma surpresinha na porta deles.”
Ele assentiu, como quem entende que a decisão já está tomada. “Eu aviso os guardas para manterem distância. E... eu vou manter um olho nela.”
“Se algo acontecer com ela enquanto eu estiver fora…”
Não terminei. Não precisava. Victor sabia. E eu sabia que ele daria a vida antes de permitir.
Segui para a floresta, deixando a casa para trás.
Então…
“Damon!”
Parei no ato.
A voz dela.
Virei devagar. Lá estava ela, parada na beira do caminho, ofegante, com os cabelos soltos e uma expressão que misturava raiva, medo… e algo que me desarmava mais do que qualquer ameaça dos selvagens.
"Precisamos conversar, ou você vai continuar me evitando?"

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