Damon Thorn
A terra úmida sob minhas patas era um alívio. Cada passo era uma descarga de tensão, cada salto sobre as pedras, uma tentativa de esquecer. A madrugada envolvia a floresta num manto denso, e o ar cortava como lâmina, mas eu não diminuía o ritmo.
Aquela era a melhor hora para a minha fuga.
A floresta era o único lugar onde eu não precisava fingir. Onde o Alfa e o homem podiam se fundir sem precisar dar satisfações. Correr era o único jeito de lembrar que eu ainda era vivo. Que não era apenas o Alfa de todos. Era o filho de dois fantasmas que a floresta nunca esqueceu.
Os galhos riscavam o céu, e a lua cheia projetava minha sombra sobre a relva. Meus sentidos estavam aguçados, cada barulho, cada cheiro, cada vibração no solo. Era como se o mundo respirasse comigo.
Então...
O cheiro do sangue.
O som de um grito.
A neve.
O corpo dela.
Os olhos da minha mãe se encontrando com os meus por um segundo que durou para sempre.
Tentei frear, mas a lembrança me paralisou no meio da trilha. Minha respiração ofegante era tudo o que eu ouvia. O gosto do medo, da impotência, da dor.
Minha mãe morreu defendendo este território.
Foi emboscada por caçadores humanos quando tentava negociar uma trégua. Achou que eles queriam paz.
Mas eles só queriam saber o quanto podiam tirar de nós antes de nos eliminar.
Ela era forte. Digna.
E morreu sozinha na neve, tentando proteger um povo que ainda chorava por ela.
E eu, com apenas quinze anos, me tornei Alfa naquela noite.
Não por escolha.
Por vingança.
Eles me deixaram cedo demais.
E desde então, tudo caiu sobre meus ombros.
Sacudi a cabeça e corri mais rápido, como se pudesse escapar da minha própria mente. Mas não adiantava. As lembranças estavam dentro, não fora.
Voltei para o território da alcateia já no fim da noite. O céu começava a clarear quando meus pés humanos tocaram o chão novamente.
Atravessei o campo com passos firmes. Ainda suado, o corpo pulsando com o esforço. Entrei na casa grande e fui direto para o meu escritório, sem falar com ninguém.
O relatório me esperava.
Victor o havia deixado em cima da mesa, com uma única frase escrita à mão:
"Você vai gostar disso, Alfa."
Abri a pasta e li os primeiros trechos.
Zion Wallace. Passava uma imagem de advogado perfeito, quando, na verdade, era um homem por trás de uma rede de manipulação, contratos ilegais e ameaças veladas.
Era isso que ele era. Um parasita de terno.
As provas estavam ali. Nomes. Datas. Transações. Conversas gravadas.
Coisas que destruiriam a reputação dele num piscar de olhos — e, mais importante, dariam a Caroline a chance de respirar de novo.
Mas aquilo era mais que justiça.
Era simbólico.
Porque Zion era humano. E para mim, humanos sempre significaram destruição.
Eles mentem. Matam. Roubaram nossas terras por séculos e nos chamaram de monstros por tentarmos sobreviver nelas.
Tudo o que minha mãe tentou construir — uma ponte entre os dois mundos — foi queimado.
E eu nunca perdoei.
Mas por algum motivo, eu não sentia raiva de Caroline Hart.
Peguei o relatório, ainda com a camisa aberta, e subi as escadas até o andar superior. A noite havia voltado a cair, e as luzes externas banhavam os vidros da varanda.
Bati na porta do quarto dela com firmeza.
Silêncio.
"Hart." Minha voz foi baixa, mas firme.
Ouvi os passos do outro lado. A porta se abriu devagar. Ela usava um casaco por cima de um vestido leve, os olhos ainda marcados pelas últimas noites mal dormidas.
"Preciso falar com você."
"Agora?"
"Agora."
A leve hesitação nos olhos dela desapareceu quando viu minha expressão. Ela assentiu em silêncio e me seguiu.
Levei-a até o terraço da mansão. A lua estava alta, e o vento soprava gelado. Ela se encolheu por instinto, e eu ofereci meu paletó. Ela hesitou, depois aceitou.
Caroline folheou as primeiras páginas. As sobrancelhas se uniram. Os lábios tremeram.
"Isso é... real?"
"É. E está só começando."
Ela ergueu os olhos para mim, surpresa, com um brilho que misturava alívio e medo.
Minha voz saiu mais rouca do que o normal. "Não é por gratidão que você deve fazer isso."
"Então por quê?"
Ela inclinou o rosto levemente, os olhos presos nos meus. "Por que está me ajudando tanto?"
"Porque você me tira do eixo, Caroline Hart."
Toquei seu queixo com a ponta dos dedos. "E eu odeio isso... mas, ao mesmo tempo, não consigo mais evitar."
Seus lábios estavam tão próximos que mal precisei mover meu rosto. Ela hesitou por um segundo — só um — antes de erguer o queixo na direção do meu.
E foi o suficiente.
Nossos lábios se encontraram com urgência contida. Não foi um beijo suave, mas sim cheio de tudo o que estávamos guardando. A raiva, o medo, a atração proibida, o desejo que queimava desde a primeira provocação.
Ela se agarrou à minha camisa e eu a puxei pela cintura, sentindo o corpo dela encaixar no meu com uma precisão absurda. Como se o universo tivesse planejado aquilo — e agora estivesse nos observando, satisfeito.
Meu lobo rosnou baixo dentro de mim. Não de ameaça. De aprovação.
Ela era humana. Mas ali, nos meus braços, não parecia haver diferença alguma. Apenas calor. Instinto. Desejo.
O beijo se aprofundou, nossos corpos pressionados um contra o outro, até que nos separamos ofegantes, ainda tão próximos que nossos narizes se tocavam.
Caroline me olhou com os olhos dilatados, as bochechas coradas.
"Isso... não deveria ter acontecido."
Sua voz era fraca, mas não havia arrependimento.
"Então me diga que foi um erro, e eu paro."
Minha mão ainda repousava em sua cintura.
Ela mordeu o lábio.
Não disse nada.
Mas antes que eu pudesse beijá-la de novo, o som do telefone fixo da casa tocou, cortando o momento como uma faca no escuro.
Ela se afastou rápido, os olhos ainda presos nos meus.
"Vai atender."
Foi tudo o que ela disse antes de virar as costas e desaparecer no corredor.
Fiquei ali por alguns segundos, tentando recuperar o controle.
O telefone tocava sem parar.
E a fera dentro de mim... ainda não estava satisfeita.

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