Damon Thorn
Hart me encarava com os olhos que só ela tinha, questionadores. E eu sabia que ela não ia me deixar em paz até que eu contasse.
Elora.
Eu não falava dela há anos. Minhas memórias sobre ela foram forçadas a serem apagadas pelo meu subconsciente.
Apenas Victor sabia. E mesmo assim, só fragmentos. Mas agora, olhando para Hart segurando o nosso filho, eu sabia que não podia esconder mais nada.
“Você quer saber quem é ela,” falei, minha voz grave. “Então eu vou te contar.”
Hart me observava com atenção. O pequeno Gael dormia no berço ao lado, mas até o sono dele parecia inquieto.
"Se isso envolve o meu filho, eu preciso saber com quem e porque estamos lidando Damon."
Respirei fundo.
Parecia que a paz nessa porcaria nunca vinha. Quando derrubávamos um problema, outro aparecia em sequência.
“Minha mãe era uma mulher forte. Não só como loba, mas como guardiã do território. Ela acreditava na ligação espiritual com a terra. Nas lendas. Nos deuses antigos.”
Hart assentiu, mas não disse nada. Sabia que vinha mais.
“Eu era criança, mas lembro que Elora era... diferente. Ela dizia ser uma bruxa do tempo antigo, da linhagem dos guardiões da floresta. Ela e minha mãe tinham um acordo: proteção mútua. Elora cuidava dos rituais, das energias. Minha mãe protegia o território. Por anos, funcionou.”
Caminhei até a estante secreta, destravei o mecanismo e puxei o grimório da minha mãe. O couro estava gasto, mas ainda pulsava energia.
“Mas tudo mudou quando eu nasci.”
Hart se aproximou, os olhos no livro, depois em mim.
“Por quê?”
“Elora... disse que eu carregava algo raro. Um traço puro de Alfa, que não se via há gerações. Um potencial de comando espiritual. Segundo ela, eu deveria ser... ‘selado’. Que o sangue precisava ser vinculado à magia.”
“Ela queria fazer um ritual com uma criança?”
“Sim. Um ritual de marca. Algo sombrio. Não era só proteção, era possessão. Minha mãe percebeu tarde demais.”
Lembrei do cheiro de sálvia queimando. Das mãos finas. Da voz doce demais.
“Ela tentou me marcar, Hart. Eu era só um garoto. Não entendi na época. Mas minha mãe... enfrentou Elora. Rompeu o vínculo. Pagou um preço alto por isso.”
“O que aconteceu com ela?”
“Ela adoeceu. Ficou fraca. A magia deixou cicatrizes invisíveis. Elora sumiu por anos. Até agora.”
Hart respirou fundo, os olhos marejados.
"Sua mãe estava fraca quando Richard atacou."
"Sim… Essa vadia também tem culpa na morte dos meus pais. Ela foi exilada, naquela época, os lobos matavam rebeldes, bruxas, qualquer um por traição. Outros tinham que implorar a Deusa da Lua para serem mortos antes do meu pai… Se me acham um Alfa duro, não o conheceram."
Hart suspirou. Agora parecia entender.
“Ela quer Gael. Pelo que ele carrega.”
“Sim. Porque ele é filho de um Alfa puro e de uma humana marcada. Ele é...” Engoli seco. “O que Elora sempre procurou. Um elo entre os dois mundos, para controlar.”
Ficamos em silêncio por alguns segundos.
"Eu darei meu sangue, para proteger o nosso pequeno Hart. Você sabe disso."
Foi quando Ava entrou correndo no quarto.
“Damon, Hart... venham ver.”
Seguimos ela pelo corredor até o quarto de Gael.
Mas ele não estava mais dormindo.
Ele estava de olhos abertos.
E os olhos dele estavam brancos. Inteiros.
Hart correu até ele, mas algo a impediu de tocá-lo. Uma barreira invisível.
“Não...” ela chorou. “Gael!”
E então, no peito do bebê, um símbolo começou a brilhar — vermelho. Como fogo. Como sangue.
O mesmo símbolo da infância.
A marca que Elora tentou usar em mim.
Me aproximei devagar, tocando a proteção mágica. Era feita de dentro. Ela estava alcançando ele... pelos sonhos.
“Damon, faça alguma coisa! Que porra é essa!”
Abri o grimório. Os dedos tremiam, mas a memória era clara.
Página 43. Encantamento de rompimento espiritual.
Comecei a recitar, em voz baixa, mas firme.

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