Caroline Hart
Estar dormindo só há alguns metros de distância de Damon me causava ansiedade.
A primeira coisa que fiz quando acordei foi tocar a garganta, como se a ameaça que disparei ainda estivesse presa ali. Eu havia feito. Eu enfrentei Zion. E, por mais que não admita em voz alta... só consegui porque ele estava comigo.
A luz entrava fraca pelas janelas altas. A mansão era absurdamente silenciosa, como se os corredores estivessem esperando eu acordar para existirem de novo.
Coloquei um casaco por cima da camisola e caminhei até a cozinha, descalça, tentando não fazer barulho. Se Damon ainda estivesse dormindo, eu preferia evitar irritá-lo.
Mas ele já estava lá.
Sentado à cabeceira da mesa de madeira maciça, com uma xícara de café nas mãos e o olhar perdido na janela. A camisa branca com as mangas dobradas e os cabelos um pouco bagunçados davam a ele um ar perigosamente... humano.
Ele me viu, e por um instante, algo brilhou em seus olhos. Mas logo desapareceu.
“Você é rápida para quem passou a noite acordada ameaçando um ex-noivo bandido e psicótico,” disse ele, com a voz baixa.
Revirei os olhos, mas sorri de canto.
“Eu sou cozinheira, lembra? Estou acostumada a funcionar mesmo quebrada.”
Me aproximei da pia e comecei a organizar as coisas. Café fresco, ovos, pão, frutas. As mãos faziam o trabalho sozinhas, mas meu corpo inteiro sabia que ele estava me observando.
Eu evitava olhar para ele, porque eu sabia que estava começando a gostar da sua presença...
“Você dormiu melhor aqui na mansão?” ele perguntou, sem desviar o olhar."
Assenti. “A cama é ótima. Grande demais. Silenciosa demais. Mas… segura.”
Um silêncio confortável pairou no ar. Eu sentia o olhar dele me atravessando.
“Você me salvou ontem, Damon, obrigada. Mas como descobriu essas coisas sobre Zion?”
Ele não respondeu de imediato. Apenas apoiou a xícara na mesa, devagar.
“Tenho meus meios, sou mais poderoso do que você imagina. Mas não me agradeça. Ainda não terminou. Ele provavelmente irá tentar algo a mais, o que eu não entendo... é por quê.”
Me virei, cruzando os braços. “Você fala como se tivesse um plano.”
Ele se levantou da cadeira. A forma como caminhava até mim era... tensa. Precisa.
“Eu sempre tenho um plano, querida.”
Fiquei parada enquanto ele se aproximava, até estar bem diante de mim. Seu cheiro era amadeirado, limpo, mas ainda assim selvagem.
"Eu já saquei sua atitude. Esse escudo seria só medo de se envolver."
Ri, sem humor.
"Você se acha tão esperto assim?"
"Não. Mas sou bom em farejar medo."
"Então você está farejando errado, Thorn. Eu só... estou cansada."
"Ninguém foge tanto de um lugar seguro só por cansaço, Caroline."
Engoli em seco. Eu podia negar, podia mentir, mas ele já sabia. De algum jeito, Damon Thorn via através de mim.
“Você também não é exatamente um livro aberto,” rebati, tentando recuperar o controle. “Você tem mais camadas do que essa casa enorme.”
Ele riu, e por um instante, aquele som foi a coisa mais perigosa da manhã.
“Talvez. Mas nenhuma delas mente.”
"Não se aproxime de mim assim," pedi, mas minha voz falhou.
Ele se inclinou um pouco mais.
“Você acha mesmo que consegue continuar fingindo, Caroline?”
"O que você quer de mim, Damon? Você é meu chefe..."
Ele não respondeu de imediato. Só ergueu uma das mãos e deslizou os dedos para o meu queixo, fazendo meu rosto levantar. Meu coração batia tão alto que eu achava que ele conseguiria ouvir.
“Você sabe exatamente o que eu quero de você, humana.”
Meus lábios entreabriram. O jeito que ele dizia "humana" fazia parecer que eu era algo raro, perigoso, proibido.
Então, minha voz saiu, quase um sussurro.
“Quem é você, Damon? Quem é você de verdade? O que está escondendo?”
A tensão no ar era palpável. Os olhos dele se escureceram por um segundo.
Damon se aproximou ainda mais, o peito colado ao meu.
“Eu sou tudo o que você teme. E tudo o que você precisa.”
Ele me puxou para o balcão com facilidade, como se meu corpo fosse parte do dele. Minha respiração falhava, e por um instante, eu quis beijá-lo. Ali mesmo. Só para acabar com aquela guerra silenciosa entre nós.
Mas ele recuou. Apenas um pouco. O suficiente para me deixar querendo mais.
"Sugiro que vista algo quente," disse ele, virando de costas como se nada tivesse acontecido. "A floresta me diz que irá nevar."
E me deixou ali, no balcão, com o coração descompassado e o gosto do quase.

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