Caroline Hart
O cheiro de café fresco preenchia a cozinha enquanto eu mexia a frigideira distraidamente.
Era como se, se eu me concentrasse em algo normal — ovos fritando, torradas dourando — eu pudesse esquecer o que tinha acontecido naquela floresta.
Mas era inútil.
A lembrança da noite anterior ainda latejava sob minha pele.
Os olhos de Damon brilhando no escuro. O som dos passos na névoa. A sensação de ser perseguida.
Fechei os olhos por um segundo, respirando fundo.
Eu estava assustada, e apesar de saber que esse lugar era distante e recluso, eu não esperava tanta loucura.
A mesa estava posta para o café da manhã, mas a casa parecia vazia.
Victor e os outros andavam em silêncio, tensos.
Algo pairava no ar, algo que eu não conseguia nomear — ainda.
Peguei o celular da bancada.
Nenhuma ligação de Zion. Nenhuma nova ameaça.
Era estranho.
Ele, que sempre fora insistente, agora estava… quieto.
Quieto demais.
O que, na verdade, eu deveria agradecer a Damon, se ele estava quieto, é porque as provas contra ele funcionaram, eu só não sabia até quando.
Maggie tinha mandado mensagens durante a madrugada.
"Estamos conseguindo aos poucos, Carol. Mas vai levar tempo. Seu rosto ainda é tóxico para o marketing e as marcas não querem se associar."Foco em se manter fora do radar. Deixa a poeira baixar."
Eu sabia que ela estava certa.
Mas era difícil.
Ver anos de carreira desmoronarem... era como assistir a um castelo de areia sendo destruído por uma onda lenta, impiedosa. Eu sentia falta de cozinhar em grandes lugares, ser aplaudida por várias pessoas. Agora o que me restava, eram os pássaros lá fora para me acompanhar cozinhando.
Bati a espátula na frigideira com mais força do que precisava.
"Frustrada?" uma voz grave perguntou atrás de mim.
Me virei de súbito.
Damon estava ali, encostado no batente da porta, os braços cruzados, me observando.
"Você sempre aparece do nada?"levantei uma das sobrancelhas."
Ele tinha aquele maldito olhar, que parecia ver mais do que eu queria mostrar.
"Não estou frustrada,"menti.
Ele arqueou uma sobrancelha.
Suspirei e desliguei o fogão.
"Você é péssimo para confortar alguém, sabia?"
"Não vim te confortar."
"Então veio fazer o quê,senhor mistério?"
Ele avançou alguns passos, o cheiro de floresta e fumaça chegando junto.
"Vim te dar ordens."
Revirei os olhos. "Que novidade."
"Você vai ficar na mansão, pelo menos por enquanto. Não vai sair sem minha autorização. "
Minha cabeça girou para ele, raiva subindo à tona.
"O que disse?!"meus olhos se arregalaram surpresos com sua audácia."
"Não é seguro lá fora."
"Desde quando você decide onde eu posso ir?"
"Desde que você virou alvo, Caroline."
"Eu não sou sua prisioneira!" explodi." Eu só trabalho para você."
"Não," ele respondeu, se aproximando ainda mais. "Você é minha responsabilidade."
Ficamos frente a frente, a tensão vibrando entre nós.
Aquela mansão parecia mais viva do que nunca — Victor reforçou as proteções ao redor da propriedade, e patrulhas discretas rondavam os limites da floresta.
Mas ali dentro... era outro mundo.
Eu não estava entendendo. Quem eram aquelas pessoas? O que eles queriam? Damon tinha segredos, e por mais que ele tivesse me ajudado, eu tinha medo do que ele escondia.
Eu terminei de preparar um jantar simples e levei a bandeja até a varanda dos fundos, onde Damon estava, olhando para o céu.
"Trouxe isso para você já que não se sentou na sala de jantar hoje."
Ele se virou. Sorriu de leve, sem me encarar. Um sorriso que eu nunca tinha visto nele — cansado, sincero.
Sentamos lado a lado.
Ele comia em silêncio.
O vento balançava as árvores distantes.
"Por que insiste em cuidar de mim?" perguntei de repente, sem olhar para ele.
"Porque o meu instinto pede que eu cuide." ele respondeu, a voz rouca.
Nos encaramos.
E, no segundo seguinte, o espaço entre nós desapareceu.
Foi diferente do primeiro beijo.
Não houve hesitação. Não houve guerra.
Só necessidade.
Urgente.Feroz.
Eu me perdi nele, nos braços fortes, na boca exigente.
Damon me pegou no colo com facilidade, como se eu não pesasse nada, e me levou para dentro, para a segurança da casa.
Para a segurança dos braços dele.
Ele abriu a porta da sua suíte rapidamente, sem tirar as mãos de mim, nossos corpos estavam colados, e nossas línguas entrelaçadas. Eu queria ser dele.
E, mesmo sem entender tudo o que ele era…
Eu já sabia: que talvez não quisesse fugir e que ele podia ser diferente.

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