POV: Massimo
O som das portas duplas de carvalho se fechando atrás de mim pareceu selar o mundo exterior. Ali dentro, na sala de jantar da mansão dos meus pais, o ar era denso, saturado pelo cheiro de charutos cubanos, perfumes caros e o aroma metálico de uma tensão que nenhum banquete de luxo conseguia disfarçar. Eu caminhei com passos medidos, sentindo os olhos de cada homem presente pesarem sobre mim como se estivessem avaliando o calibre da minha alma. Eu não era apenas o filho de Vittorio Capone; eu era o Don da máfia italiana, um dos líderes da Tríade Negra, e cada movimento meu precisava exalar a autoridade absoluta que o cargo exigia.
Meu pai estava sentado à cabeceira, a personificação de uma era antiga, brutal e sangrenta. Ao seu lado, os representantes de Chicago — homens com ternos vistosos e sorrisos que nunca chegavam aos olhos — e, do outro lado, os sicilianos, cujos rostos pareciam esculpidos em pedra bruta, carregando séculos de tradições e rancores familiares.
— Massimo, finalmente — meu pai disse, estendendo a mão em um gesto que era metade saudação, metade comando. — Sente-se. Estávamos prestes a começar o brinde de abertura.
Sentei-me no lugar reservado para mim, de frente para ele, na posição de poder que espelhava a dele. Alfredo começou a servir o vinho tinto, um reserva que custava mais do que a vida de muitos homens comuns. O líquido escuro caiu nas taças de cristal com um som suave, quase hipnótico, mas eu sabia que cada gota ali tinha um preço em sangue.
— Cavalheiros — meu pai começou, levantando sua taça com um brilho de triunfo nos olhos. — Aos novos negócios e à lealdade que mantém nossas rotas seguras.
Todos brindaram, mas eu apenas molhei os lábios. Eu precisava da minha mente afiada como uma lâmina. O jantar começou com pratos de alta gastronomia, mas ninguém estava ali pela comida. O representante de Chicago, um homem chamado Sullivan, foi o primeiro a quebrar o gelo diplomático, lançando a primeira isca.
— Don Massimo, ouvimos muito sobre sua gestão eficiente — Sullivan disse, inclinando-se para frente com os cotovelos apoiados na mesa, uma quebra de etiqueta proposital para testar minha reação. — Mas também ouvimos que suas... atenções... estão divididas ultimamente. Soubemos que há uma nova presença na sua casa que não faz parte do nosso círculo.
Senti o meu maxilar travar, mas mantive a expressão gélida, uma máscara de indiferença que ocultei o ódio crescendo no meu peito. Pelo canto do olho, vi Vittorio observar minha reação com um brilho de expectativa cruel. Ele queria me ver acuado.
— Meus negócios continuam operando com precisão cirúrgica, Sullivan — respondi, minha voz saindo baixa e perigosa, cortando o barulho dos talheres como um golpe de faca. — Minha vida pessoal é um território onde nenhum de vocês tem jurisdição. Sugiro que foquemos no motivo pelo qual Chicago atravessou o oceano: as rotas logísticas.
— O Don tem razão — interveio um dos sicilianos, a voz rouca e carregada de sotaque. — Mas a estabilidade de um Don depende da força de sua casa. Uma mulher comum é uma porta aberta para o inimigo. Na Sicília, as regras são claras: ou ela nasce no sangue, ou ela é um risco que deve ser eliminado.
A tensão na mesa subiu dez graus em um segundo. Eu olhei diretamente para o siciliano, sustentando o olhar até que ele desviasse levemente, desconfortável. Eu não tolerava que estranhos discutissem o destino de Chiara. Ela era minha, e qualquer ameaça dirigida a ela era uma afronta direta à minha soberania.
— Chiara está sob minha proteção — declarei, pausadamente, garantindo que cada homem naquela mesa entendesse a gravidade das minhas palavras. — E o que eu protejo, ninguém toca. Se estamos aqui para falar de logística, falemos. Se estão aqui para questionar minhas escolhas, este jantar acabou antes mesmo do prato principal ser retirado.
Meu pai soltou uma risada curta, tentando suavizar o clima, embora seus olhos permanecessem frios como gelo.
— Massimo sempre foi zeloso com suas propriedades, cavalheiros. Vamos voltar ao que interessa. Sullivan, fale-me sobre os novos portos que vocês estão controlando em Illinois.
A conversa voltou-se para números, carregamentos e propinas, mas eu já não estava totalmente ali. Enquanto eles discutiam as rotas, minha mente vagava para a minha mansão, para Chiara. Eu pensava nela trabalhando na minha empresa, cercada por pessoas que não tinham ideia de quem ela realmente era. A ideia de manipulá-la para que ela deixasse o emprego tornava-se cada vez mais urgente. Eu a queria dependente, isolada do mundo exterior, segura dentro da redoma que eu estava construindo para ela. Se eu fosse o dono de tudo o que ela tinha, inclusive do seu sustento e do seu tempo, ela nunca poderia me deixar.
Mas se Vittorio acha que eu vou esquecer esse jantar que ele armou para me envergonhar na frente deles, ele está muito enganado. Eu sentia o veneno de sua manipulação correndo por baixo da mesa, e a conta chegaria.

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