Capítulo 167 — Zero por cento
Tristan Blackwood
A noite foi uma verdadeira sessão de tortura psicológica. A imagem da Aubrey se debatendo desesperadamente naquela cama e da Giovanna fugindo pelo corredor do hospital continuavam girando em looping na minha mente, sem dar um segundo de trégua para a minha sanidade.
Mas o que mais me atingia no centro do peito… o que realmente destruía a minha alma em mil pedaços era saber que o meu filho tinha partido. A cretina da Giovanna tinha conseguido exatamente o que queria: tirar o meu bebê de mim.
Meus amigos se revezaram a madrugada inteira para me fazer companhia, e esse gesto, esse cuidado silencioso, valia infinitamente mais do que todo o dinheiro do mundo.
Os primeiros raios de sol de um novo dia já começavam a entrar timidamente pela janela de vidro quando o Chris entrou na sala trazendo dois copos térmicos de café fumegante nas mãos.
— Bom dia, fura-olho.
Sorri fraco para o meu amigo. Quando nos conhecemos anos atrás, ele disse com a maior cara de pau que nunca tinha ouvido falar de alguém com o nome Tristan.
O Declan acabou contando para ele a clássica lenda de Tristan e Isolde, onde o Tristan é o sobrinho leal do Rei Marco que é enviado para buscar a Princesa Isolde para o casamento real, mas, no caminho da viagem, os dois acabam se apaixonando perdidamente.
A lenda tem toda uma complexidade, mas é claro, que para a cabeça do meu amigo, a única parte que ele realmente gravou de forma permanente foi a do sobrinho pegando a mulher do tio. Desde aquele dia em diante, eu me tornei o eterno “fura-olho” para ele.
— Bom dia, Lawson. — respondi, a voz saindo ligeiramente rouca enquanto pegava o copo quente da sua mão. — Você não precisava ter vindo tão cedo assim para cá, cara.
Chris colocou a mão firme e pesada no meu ombro.
— Nós combinamos no início dessa bagunça que você não passaria por esse momento sozinho, Stan. E nós costumamos cumprir rigorosamente as nossas promessas.
Dei um sorriso de canto, sentindo o peito aquecer um pouco. Eu pouco mexi no meu celular desde que a Aubrey deu entrada nesse hospital, mas eu vi a mensagem no nosso grupo da fraternidade. Dam e Noah foram categóricos sobre isso.
Ele não me deixariam sozinho. E eles não deixaram.
— Eu sei, irmão… E muito obrigado por isso.
Ele assentiu com a cabeça e nós dois ficamos ali por alguns minutos, bebendo o café forte em um silêncio calmo. De repente, o celular dele vibrou no bolso. Chris pegou o aparelho, leu a tela, digitou uma resposta rápida e em seguida virou-se para mim.
— Era o Dom no grupo. Ele já está a caminho da delegacia federal onde a Giovanna passou a noite detida. E a Ester está vindo para cá agora mesmo com o Eli, o Damien e o Ozzie.
Assenti com um aceno rígido de cabeça.
— Tudo vai se ajeitar, irmão. Só confia no processo. — Chris disse, o tom de voz calmo e seguro.
Senti as lágrimas, que eu vinha segurando a manhã inteira, voltarem a queimar o fundo dos meus olhos.
— Eu estou tentando me apegar com todas as minhas forças a essa esperança, Chris… Eu juro que estou. Mas está difícil pra caralho. O dia de ontem passa na minha mente repetidas vezes, como um pesadelo sem fim. Eu vou da felicidade extrema da manhã com a minha mulher nos meus braços e o nosso filho no ventre dela, para o final do dia onde eu descubro que ele se foi…
Soltei o ar devagar, a minha voz falhando.
— E o pior de tudo… Sabendo que foi por minha culpa. Porque um dia eu fui estúpido o suficiente para me envolver com uma louca, e ainda a coloquei dentro daquela mansão, deixando ela com acesso livre para fazer mal às duas pessoas que eu mais amo neste mundo.
As lágrimas baixaram com força pelo meu rosto. A dor física da perda, somada à agonia de saber que a Aubrey ainda nem tinha a menor ideia do que havia acontecido, me sufocava.
— Não se culpe dessa forma, cara. Não tinha como você prever a maldade de ninguém. — Chris interveio de imediato. — Talvez isso pudesse ter sido evitado? Sim, talvez. Mas não temos como ter essa garantia no mundo real. Eu aprendi com a minha Encrenca… — sorri pela forma como ele chamava a esposa. — Que as coisas simplesmente acontecem porque têm que acontecer, sejam elas maravilhosas ou terrivelmente ruins.
Ele deixou o seu copo de café de lado na mesa, pegou o meu da minha mão, o colocou ao lado e me encarou bem no fundo dos olhos:

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: O CEO de Gelo e a Mulher Que Ele Jurou Odiar