Capítulo 175 — O Coração Não Esquece (Parte II)
Tristan Blackwood
Engoli em seco, a garganta travada, antes de conseguir responder:
— Oi.
Ela estava pálida por conta do trauma físico, mas continuava sendo, de longe, a mulher mais deslumbrante e fascinante de todo o mundo.
— Você vai se aproximar de mim ou vai ficar parado aí na porta me encarando? — ela perguntou, arqueando uma das sobrancelhas.
Sorri imediatamente diante daquela fala, lembrando das palavras da Ester. É… essa era a minha Bree. Caminhei com passos cuidadosos na sua direção, puxei a cadeira de acrílico e me sentei bem ao lado do leito.
Ela tinha o acesso venoso do soro preso ao braço e alguns eletrodos colados no peito.
— Como você está se sentindo, amor? — perguntei sem pensar.
Vi um brilho diferente nascer no fundo dos olhos verdes dela. Talvez fosse pelo hábito automático de eu tê-la chamado de ‘amor’, mas a palavra simplesmente saiu direto do meu coração.
— Estou bem… Só estou sentindo o meu corpo um pouco pesado, mas a Ester me explicou que isso é perfeitamente normal por conta de tudo o que o meu organismo sofreu. — ela respondeu, a voz saindo mansa. — E a minha cabeça dói um pouco também, mas o doutor Newton me disse que era por conta de algo que ainda está no meu cérebro… Eu só não me lembro muito bem do nome técnico que ele usou.
Sorri com doçura para a sinceridade dela.
— O sangramento intracraniano. — falei em tom suave.
Aubrey balançou a cabeça de forma afirmativa.
— Isso mesmo! Foi exatamente isso o que ele me disse.
A voz dela era tão suave que parecia uma carícia. Eu tinha meus olhos fixos no rosto dela, mas eles rapidamente se desviaram para suas mãos, ela mexia os dedos nervosamente sobre o colo.
Aquele era um tique e um gesto característico que ela sempre fazia quando ficava ansiosa ou constrangida. Desviei o olhar das mãos dela para os seus olhos, e criei coragem.
— Eu posso… posso segurar a sua mão? — a minha pergunta saiu terrivelmente vulnerável.
— Pode… — ela respondeu, as bochechas corando levemente.
Segurei as suas mãos com um cuidado infinito, sentindo a textura da sua pele. Peguei uma delas com doçura, levei até os meus lábios e depositei um beijo lento e demorado sobre o nó dos seus dedos.
Aubrey me observava com uma mistura de curiosidade e expectativa, como se estivesse aguardando ansiosamente por cada gesto de carinho que eu fazia. Mantive uma das minhas mãos entrelaçadas à dela e levei a outra até o seu rosto, acariciando a sua bochecha com o polegar, sentindo que sua pele ainda estava gelada demais para o meu gosto.
— Você se lembra de mim, Bree? Eu estava bem aqui ao seu lado da outra vez que você acordou…
Ela negou devagar com a cabeça, o olhar vagando por um instante.
— É tudo meio nebuloso… É como se fossem apenas flashes soltos, mas as ideias e as lembranças antigas simplesmente não se cruzam na minha mente. O doutor Newton me explicou de forma bem simples: ele disse que a primeira vez que eu acordei eu já tinha sofrido um trauma forte, e agora eu sofri outro logo em seguida. É como se a minha mente tivesse sido totalmente resetada por segurança.
Assenti, engolindo a dor daquela confirmação.
— Tudo bem, amor… Se você quiser, eu posso me apresentar para você de novo, do zero.
Aubrey abriu um sorriso espontâneo, os olhos brilhando.
— Mas eu já sei exatamente quem é você. — ela revelou em um tom divertido que aqueceu o meu peito instantaneamente.
— Sabe? — perguntei, a minha voz falhando pela emoção.
— Sei sim. A Ester me contou tudo sobre você, e ela até me mostrou uma foto sua que estava no celular dela.
Soltei uma risada baixa, imaginando que aquela atitude era a cara da nossa amiga médica.
— E quem eu sou para você então? — perguntei, me sentindo tão pequeno e exposto naquele momento que até os meus ombros encolheram.
— Você é o homem da minha vida… Palavras da Ester, não minhas. — ela respondeu, soltando uma risada gostosa.
Eu ri com toda a vontade do mundo dessa vez, acompanhado pelo riso melodioso da Aubrey.
— Sim… Você costumava me dizer exatamente essa mesma frase antes de tudo acontecer: que eu era o homem da sua vida. — Acariciei o rosto dela suavemente mais uma vez. — E você é a mulher da minha vida, Bree. Você é o meu único amor.
As bochechas dela ficaram terrivelmente avermelhadas de novo. E mesmo no meio da dor esmagadora de saber que ela não se lembrava de nós, eu estava absolutamente apaixonado ao vê-la agir de forma tão tímida diante de mim.
— Te incomoda saber disso? Saber que eu te amo com todo o meu ser? — perguntei.

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