Capítulo 219 — Um Fio de Esperança
Katlyn Pratt
O medo tinha se transformado em uma presença física, pesada e constante, alojada no fundo da minha garganta como um nó que nunca se desfazia.
Eu me arrependia amargamente de cada segundo, de cada escolha imbecil e de cada passo que dei na direção do Estevan. Olhando para trás, a sensação de vergonha era avassaladora por ter sido tão estúpida a ponto de largar toda a minha estabilidade para me dedicar a um homem desprovido de qualquer empatia, incapaz de amar qualquer coisa além do próprio reflexo distorcido de poder.
No início, ele parecia apenas um homem dominante, sofisticado e seguro de si. O controle dele ficava restrito às quatro paredes, em jogos na cama intensos e bem delimitados; fora do quarto, ele fingia cavalheirismo, me deixava sair com as minhas amigas, me levava a jantares caros e me permitia ter uma rotina comum.
Mas aquela ilusão durou pouco.
Com o passar dos meses, a máscara caiu e tudo se transformou em uma teia doentia de paranóia e desconfiança. Um atraso de cinco minutos para voltar para casa era tratado como uma traição imperdoável. Ele passou a me agredir sem qualquer piedade, desferindo t***s e golpes covardes para depois me trancar, ferida e no escuro, no que ele chamava sadicamente de quarto da disciplina.
Os empregados da casa tinham ordens estritas de nunca intervir ou me prestar socorro, sob ameaça de morte. E o pior vinha depois: após me deixar horas naquele isolamento humilhante, ele me arrastava para a cama dele, me obrigando a me entregar a ele sem esboçar um único sinal de repulsa.
Qualquer suspiro de desagrado ou lágrimas no meu rosto era visto como rebelião, rendendo novos castigos e mais dias trancada naquele calabouço.
Ir atrás do Ambrose foi a atitude mais difícil e humilhante que tomei em toda a minha existência. Eu tinha plena consciência de que errei feio com ele no passado, o magoei profundamente e fui egoísta demais.
Mas, quando o cerco se fechou, eu sabia que o Ozzie era o único homem decente e com recursos que estenderia a mão para me salvar.
Eu só não esperava que o Estevan fosse tão implacável a ponto de me rastrear tão rápido. Fugir para Hoboken foi puramente um ato de sobrevivência, um grito desesperado de quem já não aguentava mais ver a própria vida por um fio.
Ambrose não me queria aqui; a frieza cortante e o desprezo no olhar dele deixavam isso explícito. No entanto, contra todas as probabilidades lógicas do mundo, a namorada dele deu um passo à frente e disparou com autoridade:
“Eu tenho uma sugestão, ela fica aqui até pegarmos esse cretino.”
Ozzie não aceitou a proposta de imediato e os dois subiram para a suíte em uma discussão tensa. Agora, eu estava aqui, sentada em uma das espreguiçadeiras mais afastadas do jardim, sentindo o peso sufocante dos olhares desconfiados ao meu redor, principalmente da esposa do Dominic e da namorada do Damien, que me fitavam como se eu fosse um vírus perigoso prestes a contaminar a casa.
Noah foi o único a me oferecer uma garrafa de água com educação antes de se afastar para me dar espaço.
— Posso me sentar? — uma voz feminina soou logo atrás de mim me tirando dos meus pensamentos.
Um sorriso amargo e discreto escapou dos meus lábios. Eu não precisava levantar a cabeça para reconhecer aquele timbre.
— Fique à vontade.
Esther puxou a cadeira ao lado e me estendeu uma long neck gelada. Aceitei a garrafa com um aceno tímido, abrindo a tampa de metal.
Ficamos as duas em silêncio por alguns instantes, observando as crianças brincando na área rasa da piscina, as mulheres rindo e os rapazes trocando empurrões e provocações como garotos adolescentes.
— Você poderia ter tido exatamente tudo isso, sabia? — Esther quebrou o silêncio, a voz soando calma, mas afiada.
Dei um gole longo na cerveja, sentindo o líquido gelado descer rasgando na garganta vazia, antes de virar o rosto para encará-la.
— Eu sabia, Esther. E se você veio até aqui apenas para esfregar os meus erros na minha cara… não precisa perder o seu tempo. Eu tenho olhos perfeitamente funcionais e uma consciência que já me cobra todos os dias.
Voltei os olhos para a água azul da piscina.
— Se você realmente tem essa consciência toda, por que se envolveu com um homem desses? — ela rebateu, com a sobrancelha arqueada. — E por que está tentando arrastar o Ozzie para essa sujeira junto com você depois de tudo o que você fez com ele?
Senti as minhas pálpebras queimarem com lágrimas teimosas que me recusei terminantemente a derramar. Parecia que na vida nada do que você fizesse de bom importava; um erro grave se tornava uma sentença perpétua que definia o seu caráter para sempre aos olhos dos outros.
Eu sabia do mal que causei ao Ambrose, mas eu não estava ali para tentar seduzi-lo ou prejudicá-lo; eu só queria voltar a andar na rua sem olhar por cima do ombro, voltar a ser uma pessoa normal.
— Eu agi por puro impulso e burrice em relação ao Estevan, Esther… — respondi em um sussurro rouco, deixando o ar escapar do peito enquanto uma lágrima solitária escorria pela minha bochecha. — E eu não estou aqui para prejudicar o Ambrose. Nós duas sabemos muito bem que eu já o fiz sofrer mais do que ele merecia… Eu só estou nesta casa porque não tinha mais absolutamente nenhum lugar seguro para onde correr.
Passei as costas da mão pelo rosto, secando a umidade rapidamente.
Esther permaneceu em silêncio por um momento, me analisando de cima a baixo com um olhar clínico e atento.
— Você quer comer alguma coisa? Você está com uma aparência péssima, de quem não se alimenta há dias.
Soltei um riso fraco diante do diagnóstico direto da médica e a mudança repentina de assunto.
— Nada tem parado no meu estômago ultimamente, mas agradeço por oferecer.
Ela se colocou de pé, ajeitando a saída de praia:
— Tudo bem, não vou insistir. Mas se mudar de ideia e decidir comer, me avise.
— Obrigada, Esther.
Ela me encarou por mais alguns segundos antes de caminhar de volta para a bancada gourmet.
No mesmo instante, uma pontada aguda e violenta revirou o meu abdômen, me provocando uma onda insuportável de enjoo. Deixei a cerveja de lado e levantei às pressas da espreguiçadeira para correr até o banheiro social da casa, mas assim que dei o primeiro passo pelo corredor externo, uma mão pesada se fechou com firmeza no meu antebraço.
— Aonde você pensa que vai? — a voz grave e rouca de Stan soou acima de mim.
Virei o rosto para ele, sentindo o suor frio brotar na minha testa.
— Eu só vou ao banheiro, Stan…
Ele me encarou com aqueles olhos verdes penetrantes por longos segundos antes de afrouxar os dedos.
— Você se lembra de onde fica?
Assenti com a cabeça em um movimento rápido.
— Então vá direto para lá e não demore. Não quero você circulando desacompanhada pela casa.
Apertei os lábios com força, engolindo a humilhação.
— Eu sei que errei muito com o Ambrose no passado, Stan… mas isso não me torna uma criminosa perigosa para vocês me tratarem como uma ameaça desse jeito.
Stan nem sequer piscou diante das minhas palavras; manteve a postura gélida de sempre.
— Eu achei que a Giovanna era inofensiva, e olha só o que aquela cretina fez com a minha namorada e com o meu filho dentro desta mesma casa. Então me desculpe, Katlyn, mas até que se prove o contrário e eu entenda as suas reais intenções aqui… — ele inclinou o rosto, baixando o tom de voz para algo quase sussurrado e mortal. — Eu não confio um único milímetro em você.
Ele soltou o meu braço e se afastou a passos largos.
Dei meia-volta e praticamente corri para dentro do casarão. Empurrei a porta do lavabo mais próximo, sem me importar em trancar o trinco, caí de joelhos sobre o piso de mármore e debrucei-me sobre o vaso sanitário.
Vomitei com tanta força que o meu tórax doeu, expelindo apenas um líquido amargo e amarelo, já que eu não ingeria nada sólido desde o dia anterior.


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