Capítulo 233 — O Cão Que Muito Late
Fernanda Garcia
O aparelho continuava vibrando na minha mão, piscando aquela sequência de números desconhecidos como se zombasse da minha paz recém-conquistada.
Meu peito subia e descia em um ritmo descompassado, mas a presença firme das quatro mulheres ao meu redor me impedia de vacilar.
Taylor estalou os nós dos dedos, ajeitou a postura no meio da sala e estendeu a mão, apontando para o aparelho:
— Pode atender, Ferferzinha. Não precisa ficar com medo. Vamos dar a esse infeliz a recepção que ele merece.
Respirei fundo, peguei o telefone com os dedos firmes, deslizei o ícone verde pela tela e ativei o alto-falante antes de pousar o aparelho entre nós.
— Fernanda?! — a voz de Mike ecoou pela sala antes mesmo que qualquer uma de nós pudesse respirar. Ele estava completamente descontrolado, arfando como um animal raivoso. — Que palhaçada foi essa que você fez com a sua mãe?! Ela acabou de me ligar chorando no acostamento da rodovia, dizendo que foi agredida e humilhada por seguranças e por uma vadia qualquer!
Emma cerrou a mandíbula, Aubrey cruzou os braços com desgosto e Katlyn deu um passo à frente, pronta para retrucar, mas Taylor fez um gesto suave com a mão para todas nós nos calarmos.
Minha amiga se inclinou sobre a mesinha, apoiando as duas mãos nos joelhos e encarando o celular com um sorriso cínico.
— Ora, ora, ora… Se não é o chaveirinho fardado de Manhattan dando o ar da sua desgraça!
Houve um segundo de silêncio absoluto do outro lado da linha, seguido por uma fungada ríspida.
— Quem é que está falando aí, porra?! Passa pra Fernanda agora!
— Você é muito burro ou a memória de bosta foi danificada pelas pancadas que você merecia ter levado na vida? — Taylor soltou com puro deboche, a voz gotejando veneno. — Aqui é a Taylor Costello, seu covarde de meia-tigela. Lembra de mim? Lembra daquele dia em que você tentou encurralar a Fer em propriedade alheia e teve que enfiar o rabinho entre as pernas quando o meu marido, o AGENTE ENCARREGADO Dominic Costello, apareceu para te colocar no seu devido lugar de merda?
Um rosnado áspero vibrou pelo viva-voz.
— Sua vagabunda intrometida… Você e o seu marido com distintivo acham que são donos de Nova York só porque ele usa terno caro em tribunal federal?! Eu sei muito bem os limites da jurisdição do FBI! Você não tem autoridade nenhuma para se meter na minha vida, na vida da minha mulher ou na da minha sogra!
— A Angelina não é sua sogra porque a Fernanda não é sua mulher, seu verme asqueroso! — Taylor rebateu na mesma moeda, sem alterar o tom debochado. — E outra: a sua "sogrinha" tentou bater na cara de quem não devia dentro de uma propriedade privada e só não saiu daqui direto para o necrotério porque nós tivemos pena da alma podre dela! Aquele cordão foi cortado, Mike. A mãe foi escorraçada e você é o próximo da fila.
— Cala essa boca, sua desgraçada! — Mike gritou, batendo com a mão em algum volante ou mesa do outro lado. — Vocês acham que vão esconder a Fernanda de mim para sempre nesse castelinho de cartas em New Jersey?! Eu não tenho medo de você, não tenho medo da sua laia e nem do namoradinho dela! Eu conheço as leis, eu sou a polícia nessa porra! Eu vou acabar com você, cretina do Costello, vou derrubar esse circo todo e vou buscar a Fernanda por bem ou por mal. Ela é minha! Ela me pertence e vai voltar para onde nunca deveria ter saído!
Taylor soltou uma gargalhada alta, gostosa e teatral que reverberou por toda a sala:
— Ai, que medinho do cão policial que só sabe latir no escuro! Escuta aqui, seu bosta: vem. Pega o seu carro agora mesmo e cruza a porra do túnel Lincoln. Tenta dar um passo dentro deste perímetro em Hoboken para você ver o que acontece. Você não vai precisar se preocupar com a corregedoria da polícia, não… Porque antes do primeiro processo administrativo ser aberto, o Ambrose e o meu marido vão te quebrar em tantos pedaços que nem a sua mãezinha vai conseguir te reconhecer no chão!
— Isso não vai ficar assim! — ele cuspiu com fúria cega. — Eu vou…
— Passar mal na cadeia, é isso o que você vai fazer — Taylor interrompeu sem dó. — É só pra te atualizar o babaca, Ambrose não é namoradinho não, é NOIVO! — ela concluiu esticando o dedo indicador e encerrando a chamada na cara dele com um estalo seco na tela.
O silêncio reinou na sala. Taylor se endireitou, sacudiu as mãos como se limpasse poeira imaginária e olhou para nós com um sorriso triunfante:
— Pronto. Menos um drama no cardápio de hoje.

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