Como fui idiota por achar que a voz dele tinha uma pitada de sinceridade quando disse que não estava feliz. Que Alexander Speredo afunde na própria miséria!
Voltei ao estúdio com passos firmes, mais para reafirmar minha decisão do que qualquer outra coisa. Peguei meus pertences — alguns cadernos, canetas e aquela caneca que eu sempre esquecia de levar pra casa — e escrevi minha carta de demissão sem titubear. Três anos dedicados a esse programa e, num piscar de olhos, tudo acabou. Era típico. Com Alexander, não existe espaço para se opor. Ele decide, e você só tem duas opções: acatar ou sofrer as consequências. Hoje, escolhi a primeira. A sensação de perda já estava tão entranhada em mim que aceitar essa derrota foi quase automático. Que se dane.
Coloquei tudo em uma sacola e fui direto ao escritório do gerente. Eu só queria entregar a carta e sumir dali.
— O que aconteceu foi injusto com você, Charlotte. Perdoe-nos por não termos te apoiado… Mas, francamente, não tínhamos escolha — disse ele, a preocupação escancarada no rosto.
Apenas assenti, sem me dar ao trabalho de dizer qualquer coisa. Tinha muito mais raiva de mim mesma por ter permitido isso do que dele ou do resto da equipe.
Peguei o primeiro ônibus que passou e voltei para minha casa. Sozinha, como sempre. Desliguei o celular, joguei minha bolsa no sofá e me joguei na cama. Tinha desistido de tantas coisas em um único dia: meu trabalho, meu orgulho… e, mais uma vez, a promessa de nunca deixar Alexander me afetar. Fechei os olhos e deixei o sono me levar, por que sinceramente? Dormir era a única forma de esquecer, nem que fosse por algumas horas.
Quando acordei, já era noite. Relutante, liguei o celular de novo, apenas para descobrir várias chamadas de um número desconhecido. Claro, era a tal secretária do Alexander com a “nova oferta de emprego”. Revirei os olhos e desliguei o telefone de novo. Que se explodam.
Caminhei até o banheiro e tomei um banho quente, tentando lavar toda aquela frustração. Quando saí, de toalha enrolada no corpo e cabelo molhado, quase tive um ataque cardíaco. Ele estava lá, sentado no meu sofá, com a mesma tranquilidade de quem é dono do mundo.
Alexander Speredo.
Meu coração disparou, mas eu não ia dar a ele o prazer de ver o quanto me abalou. Me forcei a parecer impassível, enxugando o cabelo como se sua presença fosse tão insignificante quanto o ar. Mas por dentro, eu fervia. Como ele ousa?
Fazia anos desde que ele tinha aparecido assim, sem avisar. E não era a primeira vez. No meu antigo apartamento, logo depois de sair da mansão dele, Alexander surgia sem aviso, quase todos os dias. Não importava quantas vezes eu trocasse a fechadura, ou tentasse instalar um sistema de segurança — nada impedia aquele homem de invadir a minha casa. Minha privacidade? Para ele, não valia absolutamente nada.
A verdade? Eu nunca soube por que ele fazia aquilo. Às vezes, achava que era um capricho herdado do pai, um controle absurdo sobre tudo e todos ao seu redor. Outras vezes, eu me perguntava se ele simplesmente se recusava a me respeitar. Mas o mais estranho era que ele nunca me pedia para voltar. Apenas aparecia, sentava no meu sofá, deitava na minha cama e trabalhava em seus papéis como se nada mais importasse.
À noite, ele simplesmente deitava ao meu lado. Não dizia nada. Só estava ali. E, de manhã, desaparecia sem deixar rastros. A raiva me consumia a cada uma dessas noites. Minha decisão de deixá-lo, de me afastar de vez, parecia insignificante para ele. Alexander não a respeitou e, para piorar, se recusava veementemente a me dar o divórcio. Como se meu desejo de me libertar não passasse de um capricho passageiro.
Minha saúde estava em frangalhos naquela época. O coração parecia uma bomba-relógio, prestes a explodir com as taquicardias frequentes. A ansiedade me corroía por dentro, criando traumas que me paralisavam. Era exaustivo, tanto física quanto emocionalmente. Eu não tinha forças para enfrentá-lo, então decidi tratá-lo como se fosse um fantasma. Não falava. Não olhava. Não me importava. Apenas me encolhia no outro lado da cama, fingindo que sua presença era tão insignificante quanto o ar. E esperava. Esperava pelo dia em que ele finalmente sumisse da minha vida para sempre.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: O CEO Que Odeio Não Quer Dar O Divórcio!