— Você bateu a porta na minha cara enquanto eu ainda falava com você, então, sim, eu ousei entrar para terminar o que comecei, senhorita Speredo. Respeito próprio é uma via de mão dupla!
Alexander estava tão surpreso quanto eu.
— Isso foi… Pedro? — Ele sussurrou, o tom incrédulo enquanto seu olhar ainda fixava a porta do banheiro.
Balancei a cabeça em confirmação, erguendo a mão para indicar que ele deveria ficar em silêncio. Nosso constrangimento já era iminente assim que saíssemos dali, mas se pudéssemos evitar Pedro como testemunha, seria um pequeno alívio.
Alexander entendeu a lógica e, embora não parecesse nada feliz com a situação, manteve-se imóvel. Não que ele estivesse acostumado a se esconder em banheiros, especialmente no quarto da própria irmã. Mas a reputação dele diante dos funcionários claramente valia o desconforto momentâneo.
— Que diferença faria se você fosse vê-lo no hospital? — A voz de Pedro reverberou do outro lado da porta, carregada de exasperação. — Depois de tudo que ele fez, você realmente acha que Mattia vai te amar só porque você esteve ao lado dele?
O nome “Mattia” congelou meu cérebro por um segundo. Mattia? Hospital?
Antes que eu pudesse sequer juntar os pedaços dessa informação, Lily respondeu, sua voz cortante e defensiva:
— Você acha que sou tão idiota? Eu tive meus motivos, Pedro! E não devo explicações a ninguém, muito menos a você!
— Você tem ideia do risco que correria? — Pedro retrucou, a frustração claramente aumentando. — Mattia é perigoso. Ele está atrás de Alexander, e isso não é uma piada. Seu irmão o mantém preso por um motivo.
Meus lábios se moveram antes que meu cérebro pudesse impedi-los.
— Mattia está no hospital? — sussurrei, chocada, esquecendo momentaneamente que estávamos em um estado avançado de espionagem clandestina.
Alexander me lançou um olhar que misturava choque e fúria em partes iguais, seus olhos estreitando como se quisesse me fulminar ali mesmo. Ele se inclinou para mais perto e sussurrou em um tom glacial:
— Por que a vida ou a morte dele importa para você?
Com reflexos rápidos (e uma dose saudável de medo), puxei seu rosto para mim e o beijei suavemente.
— Não importa. Eu te amo, não é o suficiente? — murmurei, tentando compensar minha evidente falta de habilidade em manter segredos.
Meu gesto improvisado teve um efeito imediato. Alexander relaxou, um sorriso lento surgindo em seus lábios antes de me puxar para um beijo mais profundo. E foi assim que, pela segunda vez naquela noite, nos pegamos nos beijando no banheiro da minha cunhada.
Se houvesse uma lista de decisões duvidosas que tomei na vida, esta definitivamente entraria para o top 10.
Quando finalmente nos afastamos, ele começou a rir, um som baixo e inesperadamente genuíno que parecia iluminar o espaço apertado em que estávamos.
— Você me deixa louco, Charlotte. Louco de amor — sussurrou, os olhos brilhando de felicidade.
Eu ri junto, sobrecarregada por aquela sinceridade rara. Em momentos como esse, prometia a mim mesma fazer o possível para que Alexander tivesse mais desses instantes. Porque, no fim, o amor é isso, certo? Trocar felicidade por um sorriso. Mesmo quando esse sorriso é conquistado com decisões absurdas em locais duvidosos.
O lado de fora, no entanto, não acompanhava nossa euforia.
— Eu queria saber se ele me via como uma mulher. Só uma vez! — A voz de Lily rompeu a calmaria do nosso momento, carregada de dor.
Houve um silêncio curto antes que Pedro respondesse, sua voz baixa, mas cheia de intensidade:
— Você não precisa da validação de nenhum homem, Lily. Você é incrível, desejável. Se ele não pôde enxergar isso, o problema é dele, não seu.
Como? Como essa discussão evoluiu para isso? Estavam gritando sobre hospital, risco de vida e Mattia, e agora Lily estava desabafando sua feminilidade ferida? Minha mente tentava acompanhar, mas falhava miseravelmente.
Depois disso, houve um silêncio tão longo que Alexander e eu trocamos olhares de dúvida. Tacitamente, concordamos: já que nossa vergonha estava garantida, que diferença faria enfrentar dois ao invés de um? Melhor encarar o furacão de uma vez.
Eu, sendo a observadora que sou, decidi que não interferiria. Minha prioridade era garantir que Alexander não perdesse a compostura — ou pior, o controle.
E então, para minha decepção, Alexander respirou fundo e falou com um tom gelado e calculado:
— Pedro, vá para o meu escritório. Quero falar com você agora.
Ele então voltou-se para Lily, sua voz ainda mais cortante:
— Lily, volte para o seu quarto. Não saia de lá até que eu permita.
Não houve explosão. Nem gritos. Apenas ordens curtas e afiadas.
Por fim, seus olhos pousaram em mim, e sua expressão suavizou ligeiramente.
— Charlotte, venha. Vou ajudá-la a voltar para o nosso quarto.
Desanimada, segui Alexander como uma criança que acabou de perder o recreio. Minha expectativa de testemunhar um grande drama havia sido completamente frustrada. Era como se ele tivesse jogado um balde de água fria em tudo, e isso só piorava minha febre imaginária.
Enquanto caminhávamos, Lily passou por mim. Sua expressão estava pálida e cheia de desespero. Ela não disse nada, mas seus olhos estavam praticamente gritando “ajude-nos!”.
Por um breve momento, pensei em todas às vezes que Lily havia tornado minha vida um inferno. Desde acusações injustas até trazer Olivia para a mansão, sabendo muito bem quais eram suas intenções em relação a Alexander. Então, como uma epifania cruel, decidi que não faria nada.
Minha forma de “ser a vilã” seria simplesmente ignorar o pedido de ajuda dela. Não intervir. Não tentar amenizar as coisas com Alexander. Nada.
Enquanto subíamos as escadas, uma pequena parte de mim se sentia triunfante por finalmente estar no controle. Claro, meu “plano maligno” não era muito elaborado, mas, para alguém como eu, parecia um grande passo.

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