Eu conhecia muito bem aquele bastardo. E, convenhamos, ele também me conhecia. Enquanto casais normais se familiarizam e desenvolvem um entendimento tácito movido pelo amor e interesse, o nosso caso era um verdadeiro espetáculo de antítese. Eu o odiava. Odiava Alexander tanto que, de maneira inconsciente, me tornei uma especialista na complexa ciência de desvendá-lo. Ou pelo menos eu tentava.
Acho que ele também me estudava. Conhecia meu ponto fraco: ser justa. Não que eu fosse uma sentimentalista, mas possuo princípios. Jamais usaria pessoas inocentes em minha jornada para alcançar meus objetivos. Alexander, no entanto, não hesitou em explorar essa fraqueza, repetidas vezes.
Após algum tempo, a tempestade emocional dentro de mim começou a amainar. Sequei as lágrimas que ainda manchavam meu rosto e, pisando no meu orgulho, alcancei meu celular. Rolei os contatos, meu coração disparando ao encontrar aquele número que não discava há três longos anos. Nunca imaginei que um dia ligaria para ele, mas, inexplicavelmente, o número de Alexander ainda estava ali, guardado como um segredo indesejado.
A chamada foi atendida rapidamente, e meu coração parecia querer sair pela boca. Medo, raiva e uma avalanche de emoções dançavam em meu peito. Ele estava lá, do outro lado, a respiração firme e constante como uma tormenta prestes a eclodir. E, assim que ele falou, sua voz profunda e familiar ecoou no meu ouvido, arrastando-me para um mar de confusão.
— Esposa.
Se fosse qualquer outra pessoa, poderia interpretar isso como deboche. Mas, considerando que era ele, soou como um convite à tortura. Um frio cortante me envolveu, e meu coração, que já estava em frangalhos, se partiu ainda mais. Não consegui articular uma única palavra.
— A reunião está encerrada — informou ele, sua voz distante e inabalável. O barulho de cadeiras se movendo e vozes se misturando ao fundo confirmava que ele atendia minha ligação no meio de uma reunião. Um verdadeiro milagre!
Lembro de todas aquelas vezes em que ele me colocava em espera por conta de suas “prioridades”, mesmo quando o que havia entre nós merecia uma atenção bem mais significativa. Perguntei a mim mesma quem seria louco o suficiente para marcar uma reunião durante o horário de almoço. E, mais importante, como ele pôde ouvir meu programa e dar ordens se estava no meio de uma reunião? Esse homem é desumano.
— Não vai se desculpar? — sua voz cortou o silêncio.
Respirei fundo, controlando a vontade de xingá-lo em vez de pedir desculpas.
— Senhor Speredo, peço desculpas por me arrepender do momento em que aceitei me casar com você. E, mais ainda, peço desculpas por te odiar mais do que tudo neste mundo. Satisfeito?
— Essas não são as razões pelas quais você deve se desculpar — disse ele, seu tom de sempre, frio e insensível.
Fiquei sem palavras por um instante. O silêncio se arrastou até que ele prosseguiu:
— Como espera que eu me comporte após ouvir minha esposa chorando por outro homem diante de toda a cidade?
Que diabos?

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