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Quadros de um divórcio romance Capítulo 203

“Aquilo que é reprimido retorna, muitas vezes de forma violenta.” Sigmund Freud

Helena acompanhava o movimento crescente do pavilhão com atenção serena. O fluxo de pessoas se intensificava: visitantes curiosos, lojistas atentos, decoradores, repórteres, engenheiros, arquitetos, consultores. Tudo se misturava num vaivém constante.

Ela ouvia as explicações precisas das recepcionistas da Orsini para quem se aproximava do balcão — ninguém saía dali sem um panfleto, um cartão, um contato. Dentro do estande, seus colegas também se destacavam, conduzindo conversas que despertavam ainda mais o interesse em cada novo visitante.

Não havia euforia. Havia permanência.

As pessoas ficavam. Demoravam-se. Faziam perguntas que iam além do preço — queriam saber de onde vinha a ideia, o porquê das formas, o sentido das escolhas de materiais. Aquilo a atravessou com uma satisfação calma, quase íntima.

Funcionava.

O estande não competia com os outros. Ele acolhia. Criava um intervalo dentro da feira — um espaço onde o olhar desacelerava e o corpo parecia encontrar repouso. Helena percebia isso nos gestos mínimos: alguém que se sentava sem perceber, outro que sorria sozinho, uma mão que permanecia sobre uma superfície mais tempo do que o necessário.

Despediu-se de uma arquiteta renomada com quem conversava quando ouviu seu nome.

— Helena?

Ela se virou e reconheceu Augusto, editor-chefe da revista CasaDecor.

— Oi! — cumprimentou-o com um sorriso espontâneo. — Que bom te ver por aqui.

— Digo o mesmo — respondeu ele, retribuindo o gesto. — Naquele dia, nem consegui te entrevistar… sinto muito pelo que aconteceu — acrescentou, um pouco sem graça.

Helena suspirou, com suavidade.

— Não foi culpa sua. Quem poderia prever? — fez uma breve pausa, o olhar vagando pelo estande antes de voltar ao presente. — Pessoas ruins existem em qualquer lugar.

Augusto assentiu.

— Você tem razão. Está muito ocupada agora? Se tiver um tempo… poderíamos fazer a entrevista hoje. Quero muito escrever uma matéria sobre o seu trabalho.

Helena sorriu, genuína.

— Está bem. Seria ótimo.

Augusto pediu à equipe que providenciasse duas cadeiras e as posicionasse ao lado do estande, próximas o suficiente para que pudessem se ouvir em meio ao burburinho constante da feira. Ajudou Helena a prender o microfone de lapela na gola do macacão, explicando rapidamente que assim conseguiria transcrever a conversa com mais fidelidade depois. Quando se acomodaram, ele ligou o gravador e começou, direto, mas cordial.

— Há quanto tempo você se dedica ao design?

— Pouco mais de cinco anos — respondeu Helena, sem ensaiar importância.

— Mas você não tem formação em design, certo?

— Não — assumiu, tranquila. — Sou formada em Artes Plásticas e Visuais.

Augusto inclinou levemente o corpo para frente, interessado.

— E como foi essa transição?

Helena pensou por um instante antes de responder.

— Um pouco desafiadora. Com a minha formação, adquiri uma base sólida em teoria das cores, composição, linguagem visual… mas precisei adaptar o foco artístico para objetivos funcionais e técnicos. Enquanto a arte visual está muito ligada à expressão pessoal, o design exige comunicação clara, propósito e funcionalidade para um público específico. — Fez uma pausa breve, sorrindo. — E eu sou curiosa. Estudei muito sozinha. Devorei livros madrugada adentro, importunei especialistas sempre que podia… Aprendia mais a cada coleção que criava.

Augusto sorriu, reconhecendo ali algo raro.

Sabia que as criações anteriores de Helena estavam ligadas ao Studio Cassiani. Ainda assim, fez uma pequena pausa antes de tocar no assunto, escolhendo as palavras com cuidado.

— E como era o seu processo criativo naquela época?

— Um pouco… cansativo — ela respondeu, refletindo. — Na verdade, cansativo não é a palavra certa. Solitário talvez descreva melhor. Criar sozinha é muito diferente de criar em equipe. Hoje percebo o quanto isso pesa no processo.

Ele assentiu e avançou, sabendo que pisaria em terreno sensível.

— Hoje vemos a Prisma exposta aqui. Mas e as coleções anteriores? Houve muita especulação sobre autoria, direitos… até uma suposta disputa judicial.

Helena sustentou o olhar dele com serenidade. Não havia desconforto.

— É verdade. Mas isso já está resolvido e ficou no passado. Minha advogada — e amiga — conduziu tudo com muito profissionalismo. Chegamos a um acordo, e vendi os direitos ao Studio Cassiani. — Sorriu de leve. — Ainda assim, tenho um carinho enorme por cada coleção. Cada criação é como um filho.

— Foi um acordo justo? — ele perguntou, com cuidado.

— Poderia ter sido melhor — respondeu, sem entrar em detalhes. — Se tivéssemos seguido adiante, o valor teria sido maior. Mas nada vale mais do que a nossa paz.

À certa altura, Helena percebeu que não eram apenas curiosos que se detinham ao redor. Um arquiteto conhecido murmurou algo para a colega ao lado, apontando discretamente para Helena, antes de anotar algo no bloco que carregava consigo. Mais adiante, um empresário reduziu o passo ao reconhecer Augusto, mas permaneceu ali mesmo depois de identificar o tema da conversa — interessado no que estava sendo dito, não apenas em quem falava.

Ninguém se aproximou demais. Houve um respeito tácito pelo momento. Eles observavam como quem assiste a algo bem construído: sem pressa, sem interrupção, conscientes de que certas coisas não se atravessam.

Augusto então mudou o foco.

— E a Orsini Design? Francesco tem fama de “caçador de talentos”. Como você acabou integrando uma multinacional tão reconhecida?

O sorriso de Helena foi imediato — e sincero.

— A Orsini foi um convite inesperado e muito bem-vindo. Francesco me ofereceu um espaço de aprendizado, liberdade criativa e uma equipe incrível. Hoje trabalho cercada de profissionais talentosos, e isso muda tudo. Sou muito grata pela confiança e pela oportunidade.

— Você está à frente da equipe de criação agora, não é? Responsável por todas as coleções?

— Sim… e não — respondeu, com leveza. — Antes eu fazia tudo sozinha. Hoje, desenvolvemos tudo juntos. A criação é coletiva, e isso deixa o trabalho mais rico.

Augusto fez uma anotação rápida e mudou o tom.

— Quando vi o estande de vocês de longe, antes mesmo de entrar, senti algo diferente. Menos exibicionismo, mais intenção. O que vocês buscaram criar aqui?

Helena demorou alguns segundos. Olhou ao redor, como se confirmasse a resposta no próprio espaço.

— Pensamos em criar um lugar onde as pessoas pudessem respirar. A feira é intensa, cheia de estímulos. Então idealizamos o estande como um intervalo. Um espaço que acolhesse quem chegasse… como um lar deve acolher.

— A Prisma já havia sido lançada antes, mas aqui ela parece mais madura — observou ele.

Capítulo 203 - A harmonia ameaçada 1

Capítulo 203 - A harmonia ameaçada 2

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