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Quadros de um divórcio romance Capítulo 204

“Nada é mais perigoso do que aquilo que foi mal enterrado.” Hannah Arendt

Silvia sempre acreditara saber conduzir o jogo, mas o reaparecimento de Márcio lhe lembrava, de forma brutal, que algumas peças não se deixam descartar assim tão fácil. Se ele resolvesse falar, tudo ruiria — o casamento, o sobrenome que estava prestes a assumir, a empresa, a versão cuidadosamente construída de si mesma. Tudo agora parecia suspenso por fios frágeis demais, esticados ao limite.

O pânico veio forte. Não pelo escândalo em si, mas pela possibilidade de perder tudo antes mesmo de tocar aquilo que julgava seu por direito.

Instintivamente, levou a mão ao ventre, como um último apelo silencioso para conter o passado que ameaçava emergir.

— Meu amor… — começou, a voz doce ensaiada. Forçou os olhos a marejarem enquanto dava passos curtos na direção dele. — Como pode dizer essas coisas? Sempre fomos uma equipe. Tudo o que fiz foi pensando no nosso filho.

Márcio balançou a cabeça, exausto.

— Eu não queria nada disso — disse, a voz quebrada. — Eu achei que a gente ia se casar, ter nossos filhos, viver uma vida simples… como a maioria das pessoas. Mas eu nem te reconheço mais. — Ele respirou fundo. — Deixei você me arrastar pra coisas que eu sempre repudiei. E olha no que eu me tornei… um foragido.

— É só uma fase — insistiu Silvia, rápida. — Eu sei que não é justo com você, mas agora falta tão pouco. Em alguns dias eu me caso com Cássio. Depois disso, se ele desaparecer, a empresa e todo o dinheiro serão nossos. A gente pode fugir, mudar de nome, mudar de país… começar de novo, longe de tudo isso.

Márcio a encarou, horrorizado.

— Pelo amor de Deus… você está se ouvindo? — disse, incrédulo. — Eu até fiquei aliviado quando aquele plano do gás deu errado. Porque, se não, eu não sei como conseguiria me olhar no espelho. — A voz endureceu. — E você já está falando em matar outra pessoa?

— Não é isso… você não entende… — tentou se defender.

Mas já não havia mais espaço para convencimento.

A porta de ferro rangeu novamente, e mais pessoas começaram a cruzar o pátio — visitantes em busca de um lugar mais reservado para fumar. O fluxo aumentava, e o risco também.

Graças àquela inútil da Helena, o rosto de Márcio estava espalhado pela internet inteira. Bastava que alguém ali o reconhecesse. Ou pior — que a vissem conversando com ele. Tudo estaria arruinado.

Silvia respirou fundo, controlando a urgência.

— Aqui não é o lugar para isso — disse, firme. — Me encontre no final da tarde, na casa que era dos meus pais.

Márcio olhou ao redor, avaliando o espaço, as pessoas. Depois voltou o olhar para ela, frio, longo demais.

— Preciso de dinheiro para um Uber. Estou sem nada.

Sem hesitar, Silvia puxou um cartão da bolsa e estendeu para ele.

— Aqui.

Ele pegou o cartão, sem agradecimento.

— É melhor você aparecer — disse, antes de se afastar. — Senão eu acabo com todo esse circo.

Márcio desapareceu entre as pessoas, deixando para trás um silêncio pesado.

Silvia permaneceu ali por alguns segundos, a mão ainda pousada no ventre, tomada por um pressentimento sombrio: nada de bom poderia nascer daquela situação. Nada.

Passou a mão pelo tecido do vestido e ajustou a postura. As mãos ainda tremiam, involuntárias. Inspirou fundo, recompôs o rosto, vestiu um sorriso discreto e atravessou as pessoas com a maior naturalidade que conseguiu sustentar. Já dentro do pavilhão, lançou olhares rápidos em todas as direções, conferindo se ele ainda estava ali ou se realmente fora embora. Márcio parecia ter desaparecido.

Seguiu, então, para a praça de alimentação — o destino que tinha antes de ser interceptada por ele.

Viviane já estava sentada em uma das mesas, as pernas cruzadas, o celular largado ao lado, a expressão claramente entediada.

— Por que demorou? — perguntou, impaciente. — Estou te esperando há um tempão.

— Desculpa… — Silvia respondeu, forçando leveza. — Precisei ir ao banheiro. Coisas de grávida.

Viviane a observou por alguns segundos, avaliando algo que não soube nomear. Em seguida, puxou a sacola que estava aos seus pés e a estendeu.

— Aqui. O que você me pediu. — Fez uma careta. — Só me devolve depois, tá? É edição limitada. Sem mesada, nem sei quando vou conseguir comprar algo parecido de novo.

— Você me salvou. Nem sei como agradecer.

Abriu a sacola e retirou uma sandália dourada, mais baixa. Sentou-se e começou a trocar os calçados, aliviada assim que os pés tocaram o chão com menos pressão.

Viviane continuou observando, agora com curiosidade aberta.

— Por que você está tão pálida? — perguntou. — Aconteceu alguma coisa?

O movimento de Silvia travou por um instante.

Não imaginara que Viviane fosse tão atenta. Precisava de uma resposta rápida. Uma explicação que desviasse o foco. A imagem do estande da Orsini atravessou-lhe a mente como um atalho conveniente.

— Aconteceu… — respondeu, retomando o gesto. — Helena. Aquela mulherzinha também está aqui.

Capítulo 204 - A cor do pressentimento 1

Capítulo 204 - A cor do pressentimento 2

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