“Há coisas que só compreendemos quando já não nos pertencem.” Carta de Vincent van Gogh
O som ambiente preenchia o pavilhão com uma música animada. Logo na entrada, os organizadores da feira se posicionavam com microfones, prontos para a abertura oficial, enquanto artistas aguardavam o momento de iniciar apresentações e performances temáticas. Tudo vibrava em expectativa.
Quando faltavam apenas quinze minutos, a equipe da Orsini percebeu que era hora.
— Vamos? — perguntou Rafael, animado, já com a mão no interruptor único que acendia todas as luzes do interior do estande.
Eles se mobilizaram em silêncio coordenado, soltando os ganchos, removendo e dobrando as cortinas com cuidado. À medida que o tecido descia, os estandes vizinhos e as pessoas que transitavam pelo corredor reduziram o passo. Alguns pararam. Outros se aproximaram sem perceber.
Quando as luzes se acenderam, o interior do estande se revelou como um convite.
Houve um breve silêncio — aquele instante raro em que o barulho do pavilhão parece recuar. O espaço era claro, acolhedor, quase íntimo. A madeira dos móveis trazia calor e textura, com veios aparentes que pareciam contar histórias. As peças de vidro refletiam a luz de forma suave, sem ostentação, enquanto pequenos detalhes dourados pontuavam o ambiente com elegância contida. O verde das plantas quebrava qualquer rigidez, trazendo vida, frescor, respiro.
Não era apenas bonito. Era confortável. Era o tipo de lugar que fazia o corpo relaxar antes mesmo de a mente entender por quê.
Algumas pessoas sorriram sem notar. Outras inclinaram a cabeça, avaliando com atenção sincera. Houve quem desse um passo à frente, atraído por aquela sensação de estar entrando em um espaço pensado para ser vivido — não apenas exibido.
A coleção não gritava. Ela acolhia.
E, em meio ao fluxo constante da feira, o estande da Orsini se destacava exatamente por isso: parecia oferecer abrigo em meio ao excesso. Um lugar onde se queria ficar.
Cássio percebeu a movimentação de longe. De onde estava, conseguia ver apenas a área institucional da Orsini com a grande escultura com plantas de fundo, a logo dourada e logo abaixo o nome dela. Mas fosse o que fosse que estivera escondido atrás daquelas cortinas agora chamava atenção. Renato, ao seu lado, também parecia curioso.
— Quer dar uma volta para darmos uma olhada discreta? — sugeriu o amigo.
Cássio hesitou. Precisava manter distância de Helena por causa da medida protetiva. Ainda assim, tratava-se de uma feira — um ambiente formal, de trabalho. E não seria necessário se aproximar do estande concorrente para observar.
Limitou-se a assentir.
Silvia percebeu o afastamento dos dois, mas o salto alto castigava-lhe os pés a ponto de impedir que os acompanhasse. Estava acostumada a plataformas altas, porém a gravidez começava a cobrar seu preço: as pernas levemente inchadas, os pés já sem tolerância para tanto tempo de apoio.
Lançou um olhar rápido ao estande da Orsini. Algo ali atraía pessoas, criava aglomeração. Ainda assim, quando viu Cássio e Renato seguirem em outra direção, sentiu-se aliviada.
Os dois amigos contornaram o quarteirão do pavilhão para não tornar evidente o interesse. Pararam na lateral onde se alinhavam pequenos espaços de cafeterias e brunches — um ponto estratégico, de onde se tinha vista direta para o estande de Helena, próximos, mas ainda a uma distância segura.
E foi dali que Cássio percebeu que aquela movimentação não era passageira. Sem perceber, deixou o queixo cair. À primeira vista, reconheceu a coleção Prisma. Estava tudo ali — as linhas, as proporções, a identidade. Mas havia algo além. Muito além. Os móveis pareciam ainda mais quentes. Luminárias surgiam integradas ao espaço, espalhando uma luz suave que não iluminava apenas — convidava. Estampas, peças decorativas, texturas cuidadosamente escolhidas seguiam o mesmo raciocínio estético, compondo o ambiente com uma harmonia silenciosa, quase orgânica.
As peças em vidro capturavam a luz e a devolviam em tons quentes, dourados, criando pontos de brilho que aquietavam o olhar. Nada ali disputava atenção. Tudo conversava. Até os cachepôs das plantas obedeciam às mesmas linhas geométricas, repetindo formas, ângulos e ritmos como se fizessem parte de uma única frase visual.
Foi então que a memória o alcançou.
A grande escultura em forma de dodecaedro do evento de cinco anos do Studio Cassiani. O dia fatídico em que a perdera definitivamente.
Helena havia trazido aquele dodecaedro para dentro da coleção — não como repetição, mas como essência. Ele estava ali, diluído, reinterpretado nas novas peças de uma forma hipnotizante.
Ela não apenas ampliara a Prisma. Ela a completara.
Cássio sentiu uma mistura incômoda de admiração tardia e perda definitiva.
— Uau. Isso… — Renato murmurou ao lado dele. — Isso está muito acima do que eu esperava.
Cássio não respondeu de imediato. Inspirou fundo, mas o ar não pareceu chegar aos pulmões por completo. Sentiu o peito apertar, uma pressão incômoda se formar logo abaixo do esterno, como se algo ali estivesse sendo comprimido por dentro. Precisou apoiar o peso do corpo de forma diferente, ajustar a postura, fingir normalidade.
— Ela me surpreendeu. — Renato continuou ainda olhando para o estande. — Não é só estética. Tem conceito, tem continuidade. Tem alma.
Cássio desviou o olhar por um segundo, como se precisasse de distância para não ser visto demais.
— Vamos — disse por fim, a voz baixa, neutra demais. — Já vimos o suficiente.
Renato ainda demorou um segundo antes de assentir.

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