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Quadros de um divórcio romance Capítulo 205

“Não se cai de uma vez. Cai-se aos poucos.” Clarice Lispector

Márcio chegou à antiga casa onde Silvia morara com os pais e teve a impressão imediata de estar diante de um fantasma. O lugar era apenas a sombra do que fora um dia. A iluminação estava desligada, assim como o abastecimento de água. As cortinas pendiam gastas, ruídas pelo tempo, e os poucos móveis que restavam estavam cobertos por uma camada espessa de poeira, como se ninguém ousasse tocá-los havia anos.

Ele nunca entendera por que Silvia insistira em manter aquela casa, mesmo depois de tudo o que acontecera ali. A mãe adoecera e falecera pouco tempo depois. O pai deprimido afundara no alcoolismo, e junto com ele desaparecera a menina doce que Márcio conhecera. Aquela casa marcara o início do fim.

Ele sabia o quanto aquilo fora difícil para ela. Tentara ajudar como pôde — mesmo que fosse pouco. Também era órfão. Os pais haviam morrido em um acidente de carro quando ele ainda era criança, e fora criado pela avó desde então. Mas nem ela permanecera tempo suficiente. Quando a perdeu, ficou sozinho no mundo.

De certa forma, ambos ficaram.

Ainda assim, Márcio acreditava que tinham um ao outro. Dois adolescentes contra o mundo, improvisando força onde não havia.

Tudo começou a mudar quando Silvia passou a se afastar.

Ele tentou justificar as atitudes dela ao alcoolismo do pai, ao peso de uma responsabilidade precoce demais. Ela precisara crescer antes da hora. Márcio dividia com ela o pouco que ganhava nos bicos que fazia, mas nada parecia suficiente. Era como enxugar gelo — o esforço constante contra algo que não parava de escorrer.

Com o tempo, Silvia parou de falar sobre os problemas de casa. Fechou-se. Ergueu muros. E, numa noite, quando ele a encontrou voltando para casa com passos arrastados e um comportamento estranho demais para ignorar, sentiu um frio percorrer-lhe a espinha. O brilho nos olhos dela havia sumido.

Ele tentou fazê-la se abrir. Insistiu para que dividissem o fardo, para que enfrentassem tudo juntos. Mas cada tentativa só a afastava mais.

Até que ela terminou com ele. E desapareceu.

Meses depois, soube que o pai fora internado em uma clínica. A casa ficara vazia desde então — abandonada, como tudo o que Silvia deixara para trás.

Ele seguiu com a própria vida. Arrumou um trabalho digno, suficiente para sobreviver sem sobressaltos. Vendeu a casa da avó e comprou um lugar menor, próximo ao emprego. Não levava uma vida de excessos ou extravagâncias, mas era uma vida boa. Tinha amigos. Teve algumas namoradas também — relações breves, que nunca avançavam muito. Sempre havia algo que o puxava de volta, uma lembrança persistente daquela garota doce que nunca o deixara por completo.

Silvia.

Anos depois, ela reapareceu à porta de seu pequeno apartamento.

Por um instante, Márcio acreditou estar sonhando. Ou sendo testado pela vida. Ela estava ali, diante dele, como se o tempo tivesse dado uma volta impossível, oferecendo-lhe uma segunda chance de tê-la de novo em sua vida.

Silvia contou que, para manter a casa, precisara pagar a hipoteca. Para pagar as parcelas, recorrera a empréstimos com pessoas erradas. A dívida crescera rápido demais, grande demais para ser quitada. E, quando percebeu, já estava presa a um homem perigoso demais para ser ignorado.

Márcio ouviu tudo em silêncio.

Quando finalmente falou, perguntou por que ela nunca lhe contara antes. Sentiu algo se partir — e se comover — quando Silvia disse que não queria envolvê-lo. Que tentara poupá-lo. Mas, pelo visto, as coisas haviam chegado a um ponto sem retorno.

Com os olhos marejados, ela disse que precisava dele. Que precisava que ele fizesse parte daquilo para que pudesse, enfim, encontrar uma saída.

Tudo soava grande demais. Distante demais de qualquer coisa que ele acreditava.

— Você enlouqueceu, Silvia — disse, a voz firme apesar do choque. — Isso é tráfico. Isso é cadeia… ou cova. Eu não vou me meter nisso.

Ela não recuou.

— E prefere o quê? Me ver morta? — respondeu, sem elevar o tom. — Porque é isso que vai acontecer se você não me ajudar.

Ele lembrava daquela conversa com uma clareza dolorosa.

— A gente pode dar outro jeito — insistiu. — Eu vendo o apartamento, o carro… e a gente some.

— Você não entende — ela disse, aproximando-se. — Não tem como fugir de Dante. Não assim.

Silvia encostou a testa na dele, como fazia quando eram jovens, e sussurrou:

— Não me deixa sozinha. Me ajuda a sair disso. Depois, eu juro… a gente some. Casa, filho, vida simples. Como a gente sonhava.

— Sil… isso pode dar errado — ele murmurou.

— Já deu errado no dia em que minha mãe morreu — respondeu ela, sem hesitar. — Tudo depois disso foi só consequência. Se você me ama de verdade, me ajuda a nunca mais ser fraca.

Foi diante daquela dor — crua, antiga, familiar — que Márcio fechou os olhos para a própria moral.

E cedeu.

Foi então que ela começou a falar da esposa de Cássio. Insistia que aquela mulher era o verdadeiro impedimento para a liberdade que tanto desejavam. Márcio não compreendia como uma pessoa que mal conheciam podia representar tamanho obstáculo. Mas Silvia martelava o assunto com insistência. Falava do filho. Do futuro. Do que a criança merecia — não apenas liberdade, mas segurança financeira para o resto da vida.

Ele nunca cogitara viver de dinheiro fácil. Queria apenas uma vida digna para o filho. Nada além disso.

Ainda assim, cedeu. De novo.

Cedeu a ela — e ao limite final da própria moral.

Jamais imaginara matar alguém. Já vira violência demais, sangue demais, corpos demais. Mas nunca sujara as próprias mãos. Para Silvia, porém, aquela mulher — Helena — tornara-se o maior obstáculo entre eles e a felicidade prometida.

E assim, ele passou a segui-la.

Observava-a à distância. Helena parecia doce, gentil, tão parecida com a antiga Silvia que ele conhecera. Dava atenção às crianças que brincavam na rua do bairro simples para onde havia se mudado. Morava numa casa grande, mas simples, sem ostentação — um lugar que dizia muito sobre quem ela era. Não havia ali traços de arrogância ou frivolidade. Pelo contrário. Era alguém real. Alguém inteira. Algo que ele não via havia muito tempo.

Mesmo assim, seguiu com o plano.

Esperou que ela entrasse no carro. Acompanhou-a pelas ruas. Quando Helena parou e se preparava para atravessar, Márcio hesitou. Foi apenas um segundo — curto demais, longo demais. Então, afundou o pé no acelerador.

O medo nos olhos dela ao ver o carro se aproximar foi como encarar o próprio abismo.

Ele fechou os olhos, incapaz de presenciar o impacto que imaginava inevitável. Mas o choque não veio.

Quando abriu os olhos e olhou pelo retrovisor, viu Helena caída na calçada, amparada por um homem. Alguém a salvara.

Um alívio violento tomou-lhe o peito, misturado a algo próximo da vergonha. Manteve a velocidade até estar longe o suficiente. Só então parou o carro, em um beco estreito, e desabou.

Chorou como uma criança.

O arrependimento e o alívio disputavam espaço dentro dele — dois sentimentos irreconciliáveis, pulsando ao mesmo tempo.

Mas aquilo ainda não havia terminado ali.

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