“Não se apaga uma mancha acrescentando mais tinta.” Paul Klee
Márcio acreditou, por um instante, que aquilo fora um livramento. Um gesto divino — ou ao menos um sinal — para que repensasse os próprios atos. Uma última chance de resgatar o pouco que ainda restava de sua alma.
O carro que usara naquela tentativa falha fora arranjado por Silvia. Não sabia a procedência, mas tinha plena consciência de que precisava se livrar dele. Dirigiu até um lago afastado da cidade, conhecido por engolir histórias mal contadas. Colocou um tijolo sobre o pedal do acelerador, engatou a primeira marcha e saltou para fora. O veículo seguiu sozinho, avançando até desaparecer sob a superfície escura da água.
Aquele lago já guardava segredos demais. A partir daquele momento, carregaria mais um — o dele.
Márcio caminhou pela estrada de terra em silêncio, os pensamentos tão pesados quanto os passos. A cada metro, repassava as escolhas que o haviam levado até ali. Amava Silvia, disso não tinha dúvida. Mas aquela mulher ainda era a mesma por quem se apaixonara?
Em algum ponto, sentiu-se responsável pela transformação dela. Se tivesse insistido mais, ajudado mais cedo, feito mais do que podia… talvez tudo fosse diferente. Talvez.
Quando alcançou a rodovia fez sinal para os carros que passavam, um após o outro, ignorando-o. Continuou andando, resignado, até que um caminhão finalmente reduziu a velocidade e parou no acostamento.
Subiu na cabine em silêncio, poupado de caminhar os treze quilômetros que ainda o separavam da cidade.
Enquanto o veículo retomava a estrada, Márcio apoiou a cabeça no vidro e fechou os olhos. Não havia alívio ali — apenas a certeza incômoda de que, mesmo tentando apagar rastros, não se foge tão facilmente das próprias escolhas.
Márcio passou o restante do dia à espera do inevitável. A qualquer momento, acreditava que seu rosto surgiria nos noticiários, ligado ao ocorrido. Mas nada veio. Nenhuma manchete. Nenhuma sirene. Nenhuma consequência imediata. Era como se nada tivesse acontecido — embora o peso do que fizera continuasse ali, intacto, pressionando-lhe o peito.
O que realmente o abalou, no entanto, foi a reação de Silvia quando soube que o plano falhara. Ela se mostrara transtornada, fora de si. Não parecia apenas frustrada. Havia algo mais escuro ali. Helena não soava como um simples obstáculo — Silvia falava dela com ódio. Um ódio que não admitia convivência, como se não houvesse espaço no mundo para ambas.
Aquilo plantou dúvidas.
Márcio começou a se perguntar se Silvia não havia se envolvido emocionalmente com Cássio. Se não havia ali algo além do plano, além do dinheiro. Ciúme, talvez.
Mas, pelo que sabia, Helena já havia se afastado dele. Então por que ainda era um problema? Por que continuava sendo a peça central de tudo?
Nada fazia sentido.
Ainda assim, Márcio permaneceu na fábrica. Afinal, Silvia estava grávida de um filho seu, e o senso de responsabilidade que ainda lhe restava não o permitia abandoná-la — mesmo quando tudo dentro dele começava a gritar que aquela história havia ido longe demais.
E, talvez, que já não tivesse volta.
Depois daquilo, Silvia sumiu novamente. Não o procurou, não atendeu suas ligações. Márcio acompanhou o desenrolar dos acontecimentos à distância, pelas redes sociais e por notícias fragmentadas: Cássio perseguindo a ex-esposa no parque; depois, a coletiva de imprensa em que afirmava que tudo não passara de um mal-entendido, atribuindo o episódio a um suposto desequilíbrio emocional dela. Garantia que logo tudo se resolveria.
Márcio riu sozinho, um riso curto, sem humor, perdido no muquifo onde se escondia. Helena não parecia instável. Quem soava desesperado era Cássio, tentando a qualquer custo trazê-la de volta ao alcance.
Pensou em Silvia. Como ela estaria reagindo a tudo aquilo?
Mal formulou o pensamento, o celular vibrou. Era ela.
Pouco tempo depois, Silvia apareceu. Estava abatida, vazia, como alguém que já não via saída. Márcio a provocou, tentou arrancar dela alguma confirmação — queria saber se suas suspeitas faziam sentido, se havia algo além do plano, algo emocional envolvendo Cássio. Pela reação dela, parecia que não. O que havia era medo.
Silvia contou que Dante lhe dera um aviso final e que enquanto Helena estivesse viva, sua própria vida estaria em risco.
Ela se lançou nos braços de Márcio, indefesa, buscando naquele contato o mesmo abrigo de sempre. Ele cedeu. Fizeram amor ali, como não faziam havia muito tempo. Por alguns minutos, ela pareceu a Silvia de antes — a que ele conhecera, a que amara.
A possibilidade de perdê-la apagou o pouco de lucidez que ele havia recuperado.
Concordou em tentar mais uma vez. Algo mais extremo. Algo do qual aquela mulher — que nada lhe fizera — não escapasse. Ainda assim, prometeu a si mesmo que seria a última vez. Depois daquilo, não sujaria mais as mãos.
Voltou a fazer campana próximo à casa dela, mais atento agora. Já sabia que havia gente observando do sobrado vizinho. Viu quando Helena saiu acompanhada do homem com quem vinha andando — e de mais duas pessoas. Pela movimentação no sobrado, percebeu que ainda havia alguém ali dentro.



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