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Quadros de um divórcio romance Capítulo 207

“Não há paz sem justiça.” Martin Luther King Jr.

Márcio juntou o dinheiro de volta no pacote e o enfiou no fundo da mochila, cobrindo-o com algumas peças de roupa, como se pudesse esconder também o peso daquilo. Pegou o capacete sobre a mesinha, respirou fundo e partiu.

Antes de deixar a cidade, procurou um amigo — um sujeito não muito correto, conhecido por fabricar identidades falsas para adolescentes burlarem a idade e entrarem em boates. Pediu-lhe um novo nome. Pagou em dinheiro pelo seu silêncio.

Só então pegou a estrada, sem destino definido.

Passou por cidades pequenas, lugares onde o efetivo da polícia era escasso e pouco eficiente. Descoloriu o cabelo. Passou a usar apenas blusas de manga longa, mesmo no calor, para esconder as tatuagens que o denunciavam. Cada mudança era um passo a mais no apagamento de quem fora.

Nunca ficava muito tempo no mesmo lugar. Não havia mais ninguém ao seu lado. Nenhuma ligação para fazer. Nenhum lugar para voltar.

Márcio seguia sozinho pelo mundo, reduzido a um corpo em movimento — tentando sobreviver tempo suficiente para que o passado, um dia, cansasse de procurá-lo.

Márcio passou a frequentar lan houses com uma regularidade quase obsessiva. Abria o e-mail sempre com a mesma expectativa silenciosa — e encontrava apenas o rastro das mensagens que ele próprio enviara, todas sem resposta. A ausência de Silvia tornava inescapável a conclusão que ele já não evitava mais admitir: fora apenas uma peça no jogo dela.

Sentiu-se tolo. Envergonhado. Enjoado de si mesmo por tudo o que permitira, por tudo o que fizera em nome de um amor que nunca existira de verdade. Afundara-se por vontade própria, sem que ninguém precisasse empurrá-lo.

Em uma de suas mudanças de cidade, acabou parando diante de uma capela simples, quase escondida entre casas baixas. Não saberia dizer o que o atraíra até ali — apenas sentiu. Algo o chamava, baixo, insistente. Entrou com passos contidos, quase constrangidos. O interior estava vazio, mas a sensação de presença era densa demais para ser ignorada. Um julgamento silencioso que pesava mais do que qualquer palavra.

Sentou-se em um dos bancos, as mãos entrelaçadas, sem saber por onde começar. Não tinha uma oração pronta, nem pedidos claros. Queria apenas aliviar, ainda que minimamente, o peso que carregava no peito.

Estava tão mergulhado nos próprios pensamentos que não percebeu quando alguém se aproximou.

— Posso sentar? — perguntou uma voz calma.

Márcio ergueu o olhar e assentiu, quase num reflexo. O padre sentou-se ao seu lado sem pressa, respeitando o silêncio por alguns segundos.

— Às vezes a gente entra aqui sem saber o que dizer — comentou, por fim. — Mas só o fato de entrar já é um começo.

Márcio respirou fundo.

— Eu não sei rezar direito — confessou, baixo.

O padre sorriu de leve.

— Deus entende o silêncio mais do que a gente imagina.

Houve outra pausa.

— Parece cansado — acrescentou.

— Estou — respondeu Márcio. — Cansado de mim.

O padre não fez perguntas. Não pediu explicações.

— Quando a culpa pesa demais — disse —, a gente costuma achar que precisa pagar por ela de alguma forma. Mas o caminho mais honesto quase sempre começa pelo bem. Pequeno, simples.

Márcio franziu levemente a testa.

— Fazer o bem… não apaga o que já foi feito, eu sei — continuou o padre. — Mas ajuda a impedir que a gente continue se perdendo. Às vezes, é assim que a alma começa a se reorganizar.

Márcio não respondeu. Mas algo naquela fala encontrou espaço dentro dele.

Nos dias seguintes, voltou à capela. Não para conversar. Apenas para estar. Aos poucos, começou a ajudar no que aparecia: subiu no telhado para trocar telhas quebradas, carregou mesas nas quermesses, ajudou a montar barracas, a limpar o pátio depois das festas. Fazia tudo em silêncio, sem se apresentar, sem criar vínculos. Era visto, mas pouco notado — e isso lhe servia.

Hospedou-se em uma pensão simples nas proximidades. Um quarto pequeno, uma cama estreita, uma rotina previsível. Pela primeira vez em muito tempo, os dias começaram a ganhar contornos normais. Horários. Tarefas. Noites sem fuga.

Márcio permaneceu ali mais do que planejara. Até sentir, ainda que timidamente, que o mundo deixara de parecer um lugar hostil o tempo todo.

Não acreditava em redenção fácil. Mas, pela primeira vez desde que tudo desmoronara, sentiu que talvez fosse possível continuar existindo sem precisar fugir de si mesmo.

Mas era certo que aquilo não duraria para sempre.

Numa tarde, enquanto escolhia algumas coisas para comer no mercado da cidade, Márcio percebeu um burburinho estranho. Pessoas paradas demais para um horário tão banal. Rostos inclinados sobre telas de celular com expressões curiosas. Algo estava acontecendo.

Aproximou-se de uma senhora com cautela, fingindo interesse nas prateleiras, e espiou a tela em suas mãos.

O mundo encolheu ao ver o rosto conhecido — Helena.

Márcio não conseguiu ouvir direito as palavras — o som do mercado, o próprio sangue pulsando nos ouvidos, tudo se misturava. Então veio o gesto.

Helena ergueu uma fotografia.

O corpo dele reagiu antes do pensamento. As pernas falharam por um instante, o estômago se contraiu, como se tivesse sido empurrado para fora de si. Reconheceu-se ali, congelado no papel, exposto ao olhar de estranhos. O passado alcançando seu calcanhar em plena luz do dia.

Capítulo 207 - Enquadrado 1

Capítulo 207 - Enquadrado 2

Capítulo 207 - Enquadrado 3

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