“A verdade não muda; muda o modo como a enxergamos.” Pablo Picasso
Márcio aguardou a uma distância segura daquele mar de gente até que a feira fosse oficialmente aberta ao público. Esperou com paciência que o fluxo se reorganizasse, que a curiosidade inicial se dissipasse um pouco, e só então entrou. Sua aparência destoava dos demais, mas, em meio a tantos estímulos visuais, a atenção que despertava era breve demais para se tornar risco.
Usou o mapa recebido na entrada para localizar o estande do Studio Cassiani. Não foi difícil. Parou a alguns metros de distância — e sua atenção encontrou Silvia antes mesmo de procurar por qualquer outra coisa.
Ela estava elegante. A pele viçosa. Serena demais. Indiferente ao caos que se tornara a vida dele por causa dela.
Observou a forma como ela tratava os funcionários: o nariz erguido, o tom autoritário, como se fosse dona não apenas daquele espaço, mas das pessoas que ali circulavam. Aquela mulher não se parecia em nada com a que ele ainda guardava na memória. A garota que amara por tanto tempo.
Pelo contrário, suas atitudes agora lhe causavam repulsa.
“Foi por ela que eu destruí minha vida?”
Poderia acabar com aquele teatro ali mesmo. Mas a saliência do ventre dela o deteve. Se estivesse enganado, aquele filho era seu. Ainda assim, agora com a mente menos turva, conseguia ler melhor as entrelinhas. A possibilidade de não ser o pai daquela criança já não lhe parecia remota.
Mesmo assim, daria a ela a chance de uma última conversa.
Encostou-se num ponto mais afastado, aguardando o momento certo. Não demorou para Cássio surgir. Márcio viu quando ele a repreendeu por estar sentada dentro do estande. Viu a raiva atravessar o olhar dela — e o exato instante em que ela a encobriu por uma doçura ensaiada.
“Uma verdadeira atriz”, pensou. “Como não vi isso antes?”
Os olhos se estreitaram com a revelação tardia. A vergonha veio junto.
“Como pôde ter sido cego por tanto tempo?”
Silvia aproximou-se de Cássio, a voz melosa, os dedos deslizando pelo braço dele — o mesmo gesto que usara tantas vezes com ele. O estômago de Márcio se revirou.
Quando ela começou a se afastar, seguindo em direção ao fundo do pavilhão, ele abaixou a aba do boné, cobrindo melhor o rosto, e se adiantou para alcançá-la.
Longe o bastante para não serem vistos, ele a segurou pelo braço. O susto e o medo que atravessaram o rosto dela foram impagáveis. Nitidamente ela não esperava vê-lo novamente tão cedo. Ou, talvez, não esperasse vê-lo nunca mais.
Márcio a conduziu até um pátio externo. Ela o acompanhou sem protestar, mas a obediência vinha carregada de resistência, perceptível sob o véu de docilidade que vestira com tanto cuidado.
Ela não tinha medo dele. Tinha medo do que a presença dele ali poderia provocar em sua vida.
Já do lado de fora, Márcio se permitiu observá-la com atenção real pela primeira vez. A facilidade com que Silvia transitava entre expressões, tons e posturas era impressionante. Calculada. Ensaiada demais para ser espontânea.
A primeira reação dela foi exigir saber o que ele fazia ali. A raiva escapava pelos cantos da máscara que já não se ajustava tão bem sob um olhar atento. Não havia surpresa — havia incômodo. E algo ainda mais claro: tudo o que ela queria era que ele desaparecesse de vez.
Quando ele mencionou que a polícia estava atrás dele, Silvia não conteve o impulso de insinuar que a culpa era exclusivamente dele. Falou em descuido, em imprudência — como se tudo o que acontecera fosse fruto da cabeça dele, e não consequência direta de pedidos e promessas feitas por ela.
Então ele a pressionou. Um pouco mais. O suficiente.
Ela se exaltou — e, como resposta automática, fez exatamente o que ele já vira momentos antes com Cássio. A voz suavizou. O corpo se aproximou. A mão encontrou o braço dele num gesto lento e carinhoso.
O teatro.
Márcio sentiu um desconforto imediato, quase físico. Uma mistura de vergonha e repulsa por só agora enxergar aquilo com tanta clareza. O toque dela, que antes o desarmava, agora lhe causava náusea.
Mas aquilo só a assustaria.
Helena o conhecia — não pessoalmente, mas o suficiente pela fotografia. Ela o identificaria e bastaria um passo para que o pânico tomasse o lugar daquela calma que ele agora observava de longe.
Ela imaginaria que a presença dele ali significava uma nova ameaça.
Não podia fazer isso com ela.
Márcio recuou alguns passos, sentindo o impulso ceder à razão. Virou-se em direção à entrada do pavilhão, mas não sem antes se permitir um último olhar. A expressão de Helena era serena, verdadeira — algo raro demais para ser tocado por mãos erradas. Havia ali uma dignidade silenciosa, uma força que não pedia defesa.
Aquilo o atravessou.
Ele se afastou devagar, deixando que a multidão voltasse a engoli-lo. Cada passo era uma renúncia. Não apenas ao pedido de perdão, mas à ideia de que poderia, algum dia voltar a olhar para o próprio reflexo sem desprezar a si mesmo.
Perto da saída, parou por um instante. Inspirou fundo. O ar parecia mais pesado ali, como se o mundo exigisse dele uma escolha definitiva.
Se não podia pedir perdão ali, ainda podia fazer algo.
Márcio deixou o pavilhão sem olhar para trás. E, pela primeira vez desde que tudo começara, não fugia para salvar a própria pele — fugia para não ferir mais ninguém.
A dívida ainda existia.
Mas agora ele sabia exatamente como começaria a pagá-la.

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